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Em eleição histórica para as mulheres, Minas Gerais elege 14 candidatas, 40% a mais que na última disputa

Publicado em 08/10/2018

Foi em meio aos gritos de “Uh, é mulher preta” e “Marielle vive” que Áurea Carolina e Andréia de Jesus foram recebidas na sede do PSOL, no centro de BH, para celebração da dupla vitória nas urnas neste domingo (7). Vereadora mais votada de Belo Horizonte em 2016, Áurea conquistou sua cadeira na Câmara dos Deputados com mais de 162 mil votos, ocupando o 5º lugar de um ranking composto majoritariamente por homens. “Chegamos com a coragem de defender as nossas causas sem arredar o pé nenhum milímetro do que a gente acredita. Estamos aqui por mais de nós no poder: mais mulheres negras, mais LGBTs, mais pessoas com deficiências. Nós teremos um quilombo no Congresso Nacional”, falou Áurea em discurso, arrancando palmas de seu eleitorado.

Nesta eleição, com todo o esforço das mulheres e do movimento feminista em divulgar as candidaturas femininas, elas finalmente chegaram a 15% de representação no Congresso Nacional – uma conquista histórica no Brasil, aumentando cinco pontos percentuais em relação à atual legislatura. Na Câmara, foram eleitas 77 deputadas federais, contra 51 em 2014, um aumento de 51%. No Senado, que neste ano é renovado em dois terços de seus assentos, foram eleitas sete, mesmo número de 2010 – quando a renovação de vagas se deu na mesma proporção. Somadas à bancada atual, elas passam a representar 12 de um total de de 81 cadeiras.

Minas Gerais também fez bonito: elegemos 40% a mais de mulheres do que na última eleição geral. Em 2014, foram 10 mineiras, cinco para a Câmara dos Deputados e cinco para a Assembleia. Neste ano, embora tenhamos conquistado uma cadeira a menos no Congresso, dobramos o número de deputadas estaduais eleitas e, assim, chegamos a 14 representantes femininas no Poder Legislativo.

Articulação feminina

E o que motivou a mudança? Vários fenômenos atuaram na campanha deste ano e um deles com certeza foi o fato de elas se entenderem como grupo político e de força. “Vimos mulheres engajadas na tentativa de colocar outras mulheres na Câmara e de entender que essa categoria ‘mulher’ tem que ser discutida dentro do poder”, afirmou a cientista política Helga Almeida, da UFMG, citando o movimento #ELENÃO como a prova dessa intensa articulação política feminina.

Ao mesmo tempo, outro fenômeno foi o avanço da extrema direita, com muitos homens brancos, conservadores e religiosos eleitos. “Infelizmente, a força de um movimento leva a um movimento contrário. Mas também significa que as mulheres estão fortes, estão cobrando uma das outras para se defenderem – isso nunca tinha acontecido”, avaliou Helga. Para ela, o mais importante é que as mulheres e outras minorias estejam lá representadas, mesmo que não sejam só as feministas, já que, por serem mulheres, elas têm vivências comuns às suas pares e diferentes dos homens.

Negras no poder

Outra vitória foi para a representatividade negra. Das 14 eleitas por Minas, quatro são pretas – 28,5% do total. Na atual legislatura, não há nenhuma negra por nosso Estado. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) também nunca teve uma representante preta e, agora, terá três.

Marielle Franco, companheira de luta, foi citada o tempo todo na fala das candidatas vitoriosas Áurea e Andréia. “Eles (assassinos da vereadora carioca) erraram o cálculo. Eles acharam que iam nos pisotear. E estamos aqui firmes”, bradou Áurea, ao lado de Andréia, eleita para a ALMG com quase 18 mil votos. Moradora de Ribeirão das Neves, Andréia discursou sobre a força das mulheres de luta que ocupam espaços tão marginalizados na sociedade. “Somos, sim, mulheres pretas. Elegemos mulheres pretas para espaços de poder”, defendeu.

Foto: Mídia Ninja / Divulgacão Facebook

Quem são as mineiras?

Dentre as eleitas em Minas Gerais, a média de idade é 46 anos. A maioria é da região Central do Estado, principalmente Belo Horizonte, mas há representantes da Zona da Mata, do Norte, do Rio Doce e do Alto Paranaíba. Cinco conquistaram a reeleição e nove venceram pela primeira vez e vão estrear nas cadeiras políticas. Elas vêm de diferentes profissões, são cientista política, professora, policial, advogada, assistente social e servidora pública. Confira aqui o perfil das eleitas. 

Rosângela Reis (Podemos) foi reeleita para seu quarto mandato na ALMG com 70 mil votos e celebrou duplamente a vitória ao saber que o número de cadeiras para mulheres na Casa praticamente dobrou neste pleito. “Quando eu cheguei, éramos pouquíssimas. A concorrência é muito desigual. Para as mulheres é muito mais difícil”, afirmou. Ela disse ainda que acredita que esse fortalecimento vai fazer com o que as causas femininas tenham muito mais força.

Cerca de 71 mil eleitores escolheram a deputada estadual Marília Campos (PT) para exercer seu segundo mandato em Minas. Ela comemorou o aumento não só de mulheres, mas de uma bancada feminina progressista, que será fundamental no atual cenário político. “Não podemos deixar de olhar para o avanço do conservadorismo, mas ainda seguimos firmes na luta”, ponderou.

As demais mulheres eleitas pelos mineiros foram procuradas pela reportagem nesta segunda-feira (8), mas não retornaram. Em suas redes sociais, elas agradeceram aos eleitores pela vitória.

Para além da urna

A conquista feminina nesta eleição, no entanto, vai muito além do resultado das urnas, de quem ganhou ou não ganhou. Ela começou no dia em que coletivos feministas e diversas mulheres decidiram se unir para lutar contra a desigualdade nos espaços de poder, para colocar seus corpos nas ruas e na disputa eleitoral.  

Duda Salabert durante a campanha, em evento Contagem – Foto: Bárbara Ferreira

Primeira candidata travesti ao Senado brasileiro, Duda Salabert (PSOL) não foi eleita, mas saiu com a certeza de ter feito história. Ela escreveu nas suas redes sociais que 351 mil pessoas se sentiram representadas por ela – a maior votação de seu partido em Minas – mesmo “sem tempo para fazer campanha (pois leciono 40 aulas por semana), somente quatro segundos no tempo de TV e apenas R$ 15 mil”. Isso em um país cuja expectativa de vida de uma travesti, segundo Duda, é de 35 anos. “Sem dúvida, a maior vitória que tive foi ouvir centenas de narrativas que traziam o seguinte conteúdo: meu pai não me aceita, é muito preconceituoso, mas me disse que vai votar em você”, relatou, feliz por saber que sua candidatura simbolicamente serviu como “ponte para aproximar pais e filhos” e para desconstruir preconceitos.

A postulante fez questão de descrever mais sobre a sua campanha: “Mostramos que política não está só na economia, nas ideologias, nas lutas de classes; mostramos que política está no afeto, no simbólico, na união das famílias”. Toda a coordenação da campanha, continuou Duda, foi realizada por um homem trans; a comunicação ficou nas mãos de dois gays, e os colaboradores formaram a diversidade LGBTIQ+.

Encerramos essa reportagem, feita a várias mãos Libertas, fazendo da mensagem final de Duda as nossas palavras: “Nossa luta apenas começou. Hoje é o primeiro dia de campanha para as eleições de 2020! Não é nem um pouco confortável disputar uma eleição. Política é um espaço tóxico. Mas é necessário ocupá-la e transformá-la. Vamos juntas pois sonho que sonha junto é realidade.”

*Errata: A cor/raça da candidata Ana Paula Siqueira foi corrigida para preta – por um erro no levantamento, antes estava branca. Assim, 4 das 14 eleitas são pretas, 28,57% do total. O texto foi atualizado no dia 10 de outubro.

Deputadas Federais eleitas (MG)

Áurea Carolina (PSOL) Deputada Federal – 162.740 votos. Foto: Bárbara Ferreira
Margarida Salomão (PT) Deputada Federal – 89.378 votos. Foto: Bárbara Ferreira
Alê Silva (PSL) – Deputada Federal -48.043 votos. Foto: Reprodução Facebook
Greyce Elias (Avante) – Deputada Federal 37.620 votos. Foto: Reprodução Facebook

Deputadas Estaduais eleitas (ALMG)

Beatriz Cerqueira (PT) – Deputada Estadual – 96.824 votos. Foto: Reprodução Facebook
Delegada Sheila (PSL) – Deputada Estadual – 80.038 votos. Foto: Reprodução Facebook
Marília Campos (PT) – Deputada Estadual – 71.329 votos. Foto: Bárbara Ferreira
Rosângela Reis (Podemos) – Deputada Estadual – 70.040 votos. Foto: Reprodução Facebook
Celise Laviola (MDB) – Deputada Estadual 57.412 votos. Foto: Reprodução Facebook
Ione Pinheiro (DEM) – Deputada Estadual – 55.634 votos. Foto: Reprodução Facebook
Leninha (PT) – Deputada Estadual – 51.407 votos. Foto: Reprodução Facebook
Laura Serrano (Novo) – Deputada Estadual – 33.813 votos. Foto: Reprodução Facebook
Ana Paula Siqueira (Rede) – Deputada Estadual – 23.372 votos. Foto: Reprodução Facebook
Andreia de Jesus (PSOL) – Deputada Estadual – 17.689 votos. Foto: Reprodução Facebook

[A Campanha Libertas é um coletivo independente e suprapartidário. Todos os nossos textos podem ser republicados gratuitamente, desde que não sejam editados e tenham a assinatura da repórter que escreveu e o link campanhalibertas.org. Quer ser um republicador e saber mais sobre as nossas pautas? Escreva para campanhalibertas@gmail.com]

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Protagonistas em movimentos na sociedade civil, mulheres mostram que é possível – e necessário – fazer política antes, durante e depois do período eleitoral

Publicada em 05/10/2018

Anotar em um papel os números das candidatas e candidatos escolhidos, conversar com amigos sobre sua escolha, ler as últimas notícias sobre as candidaturas. Nas vésperas da votação, é isso que resta fazer, lutar pela democracia expressa no voto. Mas, e quando o período eleitoral passar? Ainda é possível fazer muito para se ter uma política mais justa e igualitária. Mulheres que estão na batalha diária pelos direitos da população feminina não desistem de influenciar o poder público. Há muito tempo, elas não esperam a chegada das eleições para fazer política.

A coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher (Nepem) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marlise Matos, destaca que a pauta da mulher é, na verdade, um conjunto de agendas ligadas ao território, à etnia, à juventude, à saúde, entre tantas outras do universo feminino. Mas essas demandas ganham pouca atenção pela falta de representatividade delas no poder público. “Geralmente, as prefeituras e as câmaras municipais estão nas mãos de homens. Então, essa bolha não se rompe, e a pauta das mulheres nunca emplaca”, pontua a especialista.

A solução mais prática seria um governo com paridade de gênero, mas, enquanto esse ideal não é alcançado, a sugestão de Marlise é que as mulheres encontrem atalhos na formação de grupos com atuação política, como os conselhos municipais. “Os conselhos costumam ser um espaço importante para deflagrar as iniciativas junto ao Executivo”, explica a coordenadora do Nepem. As negras, as quilombolas, as mulheres de regiões rurais e tantas outras podem participar desses núcleos municipais e, assim, começar a contemplar a agenda de gênero.

Conselhos municipais

Em Belo Horizonte, existem 24 conselhos municipais, segundo a prefeitura da capital,  formados por representantes do poder público e da sociedade civil. Além do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, há diversos outros com temas que passam por essa luta. Alguns exemplos são os de Habitação; de Promoção de Igualdade Racial; dos Direitos da Pessoa com Deficiência; de Alimentação Escolar e da Juventude.

Carla Anunciatta de Carvalho. Foto: Arquivo Pessoal

Na presidência do Conselho Municipal de Saúde de Belo Horizonte está Carla Anunciatta de Carvalho. Ela acabou de ser eleita para o cargo, mas sua atuação pela melhoria da saúde pública acontece há anos, desde quando ela viu seu direito ser negligenciado como usuária do sistema. “Minha história de luta pela saúde começou quando fui fazer uma consulta no posto. O médico não foi, e ninguém avisou”, recorda Carla. À época, ela escreveu uma sugestão para a caixinha de reclamações, e a gerente do posto a chamou para participar da Comissão Local de Saúde, que é uma instância anterior aos conselhos, em que participam gerentes e usuários dos centros de saúde.

As demandas levantadas nesse grupo vão para os conselhos distritais de cada região para, depois, seguirem para os conselhos municipais. Carla avalia que a participação nesse tipo de grupo é importante para todos os cidadãos, mas ainda mais urgente no caso das mulheres. “Mais da metade dos usuários dos centros de saúde é de mulheres, seja para levar os filhos para vacinar, se tratar ou buscar atendimento para elas”, afirma a conselheira, destacando que a presença delas no Sistema Único de Saúde (SUS)  também é forte no quadro de funcionários. Presentes nesses espaços de atuação política – analisa Carla –, elas podem pensar nas ações de atenção à saúde da mulher, em demandas como humanização do parto, e lutar para que sejam bem assistidas no SUS.

Lutas populares

Outro espaço de exercício da política comumente ocupado pelas mulheres é o da luta popular, que se desdobra em diversas iniciativas e grupos. Um deles é o Brigadas Populares, que atua em diferentes demandas cotidianas, como reforma urbana e lutas antiprisional, sindical, pela juventude e pelas mulheres. Há uma frente de trabalho dedicada às pautas exclusivamente femininas, mas as mulheres são a força motriz de muitas outras batalhas. “As mulheres, historicamente, estão produzindo insurgências contra o modelo dominante”, afirma Andreia de Jesus, integrante do movimento e candidata a deputada estadual em Minas Gerais. “Elas são pioneiras na autoria de projetos, na condução de experiências como as ocupações urbanas, na luta pelo direito ao trabalho”, cita Andreia.

Andreia de Jesus. Foto: Arquivo Pessoal

Mais um exemplo de participação forte delas é o caso dos ambulantes que disputam os centros e o comércio, que são em sua maioria mulheres. Também são elas que reivindicam o direito de acessar os familiares que estão presos. Para Andreia, o enfrentamento ao genocídio de jovens negros é, sim, uma luta feminista. “São as negras que têm perdido seus filhos para uma violência estatal e que se organizam para questionar esse Estado punitivo, que encarcera de forma massiva”, defende. Seja na atuação da política do cotidiano ou da política formal e institucional, o maior desafio, nas palavras de Andreia, é a construção de um poder de identidades feminina, étnica e de classe.

Nesse contexto de luta popular também se destaca a participação juvenil por meio dos Fóruns das Juventudes dos municípios. O de Belo Horizonte, que agrega jovens da região metropolitana, realiza atividades de mobilização, formação, comunicação e incidência política, utilizando espaços e linguagens dos jovens em atividades como saraus, batalhas de MCs e ações em escolas. A coordenadora política do Fórum das Juventudes de Belo Horizonte, Nívea Sabino, afirma que o recorte de gênero – assim como o de raça e de orientação sexual – é fundamental para a compreensão de como alguns corpos estão mais sujeitos às vulnerabilidades sociais.

“Dentre os secundaristas que lutaram e ocuparam as escolas públicas requerendo melhorias, as mulheres não só foram a maioria, como lideraram os movimentos”, frisou. Segundo Nívea, no movimento de poesia falada, elas revolucionaram esses espaços que eram majoritariamente masculinos, e hoje são homogêneos. “As mulheres são o chão da luta e a base de todas as mudanças sociais, não precisam esperar apenas pelas eleições para agir”, disse. Foi no Fórum das Juventudes que ela compreendeu o quanto a sua poesia era resistência e ativismo. Áurea Carolina, vereadora mais votada em Belo Horizonte nas últimas eleições, é “cria” desse Fórum.

Coordenadora política do Fórum das Juventudes de Belo Horizonte, Nívea Sabino. Foto: Beth Freitas 

Fora dos grandes centros

Mulheres também lideram ações e movimentos fora dos grandes centros. São delas as vozes que clamam pelas comunidades que vivem na periferia, nas ocupações urbanas e em comunidades tradicionais como quilombolas e indígenas. Integrante do Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores por Direito (MTD), Valéria Borges Ferreira é uma das lideranças na Pedreira Prado Lopes, aglomerado antigo de Belo Horizonte. A ativista realiza um trabalho educativo com cerca de 100 mulheres, trabalhando questões como política, sexualidade, autoestima e outros temas de interesse do universo feminino.

O objetivo é trabalhar a visão que elas têm de si mesmas para que entendam sua força e contribuam politicamente. “O trabalho que eu desenvolvo tem ajudado muitas mulheres a se enxergarem politicamente e emocionalmente”, acredita Valéria, que busca ainda mostrar que há outros caminhos fora desses que são impostos a elas. “Elas têm aprendido que precisam fazer uma revolução, fazer algo acontecer primeiro na vida delas, entendendo o papel que têm na sociedade e, assim, conseguir romper as correntes que as prendem”, afirma.

Ainda mais longe da capital, a voz de Maria Aparecida Dias, a Tuquinha, se faz ouvida na comunidade quilombola Chacrinha dos Pretos, em Belo Vale, na região Central de Minas. A comunidade é de 1752 e, hoje, reúne 45 famílias, somando cerca de 150 pessoas. Tuquinha, que é presidente da Associação Comunitária da Chacrinha, acredita que sua atuação pelos direitos de sua comunidade e de outras ao redor é, muitas vezes, a única “política” com a qual os quilombolas contam. “Tem coisa que faço aqui que é muito maior do que o que os próprios políticos fazem”, ressalta ela, elencando algumas ações. “Ajudo outras comunidades a fundar associações, consigo médicos, empregos para os jovens, professores melhores, e converso com o prefeito sobre as necessidades locais”. As mulheres são maioria não apenas nas famílias que compõem a comunidade, mas também na atuação política. “Mesmo com dificuldades, elas vão até o fim nas batalhas”, diz.

Maria Aparecida Dias, Tuquinha. Foto: Arquivo Pessoal

A história do movimento MUITAS

Muito antes das campanhas eleitorais, um grupo formado por gente das ruas e dos movimentos sociais fez história em Belo Horizonte. Idealizado em 2015, o movimento MUITAS começou com um simples chamado no Facebook para “Uma tarde de sábado” e uma conversa sobre um outro tipo de política, em que a representatividade importava. O grupo se agigantou e, no ano seguinte, chegou ao poder com a vitória de duas vereadoras: Áurea Carolina e Cida Falabella, ambas do PSOL.

Integrante e apoiadora do movimento desde o início, Janaína Macruz explica que aquela tarde de sábado se transformou em diversos outros encontros e em uma construção coletiva de um projeto de governo que representasse a sociedade em suas diferenças de corpos e de demandas. “Decidimos que iríamos ocupar as eleições porque as instâncias de poder estão aí para representar toda a sociedade, mas o que vemos é apenas um grupo representado: homens brancos e héteros”, destaca Janaína.

Como no Brasil não é possível ter uma candidatura independente, o MUITAS realizou diversas reuniões com partidos de esquerda para filiar suas candidatas. O PSOL foi o que teve maior abertura para o movimento e, por isso, foi o escolhido para lançar 12 candidaturas nas eleições de 2016. “A vitória de duas mulheres foi muito significativa. O sistema tenta de tudo para que a gente não chegue lá, mas o povo unido atravessa as barreiras do racismo, da heteronormatividade e do machismo”, avalia Janaína.

Reunião do MUITAS. Foto: Reprodução Facebook

Gabinetona

O trabalho por representatividade continuou quando as vereadoras assumiram seus cargos na Câmara de Belo Horizonte em 2017. A primeira ação delas foi desconstruir a ideia de “trabalhos individuais” e, assim, quebraram as paredes de seus gabinetes e transformaram os espaços em um só, chamado de Gabinetona. “Lá, trabalham mulheres, trans, moradores de ocupações e diversas pessoas que representam as diferentes demandas da cidade; tudo é conversado com a população”, pontua Janaína.

A integrante do MUITAS chama as mulheres para “saírem da utopia e irem para a prática da luta”. E são várias as formas de incluir as mulheres nessa luta, desde votar nelas para cargos públicos, passando pela atuação em movimentos, até a escolha de mulheres para ocupar posições em empresas ou realizar serviços diversos. Janaína Macruz é produtora cultural e, quando precisa escolher profissionais para os projetos, tenta encontrar uma mulher: “Precisamos nos fortalecer juntas, porque, quando uma avança, todas nós avançamos”.

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Combater a violência doméstica é a maior demanda política em Minas Gerais

Publicado em 19/09/2018

Todas as lideranças femininas com atuação nas dez macrorregiões de Minas Gerais entrevistadas pela Campanha Libertas apontaram a violência doméstica como o principal problema a ser combatido pelos(as) representantes que serão eleitos(as) neste ano. A falta de autonomia das mulheres e a baixa representatividade feminina são outras queixas frequentes no interior do Estado. Elas correspondem a 51,9% do eleitorado mineiro, e seu voto será decisivo no próximo dia 7. Os candidatos e candidatas devem estar preocupados em atender às demandas dessa parcela da população em seus planos de governo. Isso significa ainda estarem atentos às necessidades específicas de todos os municípios mineiros.

De acordo com a Polícia Civil, em 2017, foram registrados 459 casos de feminicídio em Minas Gerais, sendo 150 assassinatos consumados e 309 tentados. Até junho de 2018, 61 mulheres foram mortas e 126 sofreram tentativa de homicídio em crimes cometidos por cônjuges, ex-companheiros ou parentes próximos. E o sistema que enfrenta essa realidade não funciona como deveria, relatam as lideranças entrevistadas.

“Quando vai prestar a queixa na polícia, a vítima tem que se deslocar de Sabinópolis até Guanhães, mais de 20 km para fazer o registro, e ela não encontra ajuda para sair de casa”, destacou Ivonilde Salomé, liderança da Comunidade Quilombola do Torra, em Sabinópolis, na região do Rio Doce. Lá, a violência contra a mulher é tida como o maior problema, e a falta de assistência desencoraja as denúncias. Salomé abrigou por seis meses a irmã com quatro sobrinhos, depois que ela denunciou o ex-marido pela violência sofrida durante 20 anos.

Acolhimento

Minas conta com apenas 72 Delegacias Especializadas de Atendimento às Mulheres para seus 853 municípios. Uma delas, em Varginha, atende a região do Sul de Minas. A professora Mônica Cardoso, sindicalista e integrante do coletivo Feminismo Popular de Varginha, conta que a cidade possui algumas estruturas como a OAB Mulher, mas que tais espaços ainda não são funcionais na hora de acolher a vítima. “Elas têm um atendimento precário e acabam sendo mais expostas”, disse. Segundo o relato, uma mulher que sofre um estupro e vai fazer uma denúncia na cidade nem sempre encontra sensibilidade no atendimento e acompanhamento posterior.

“É tudo muito burocrático, passa por várias instâncias até surtir algum resultado, e muitas vezes não acontece nada”, relatou Mônica. A falta de casas de apoio e acolhimento a estas vítimas também é uma reclamação constante entre as lideranças. “Sinto uma carência muito grande de um projeto para tirá-las da dependência financeira do marido”, avaliou.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Autonomia

Se existe a invisibilidade das mulheres na área urbana, no campo a situação é ainda pior. É preciso incentivar a formação e a conquista da autonomia da mulher na roça, indica a agricultora quilombola e coordenadora geral da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (FETRAF-MG), Lucimar Martins. Segundo ela, que atua em Simonésia, na Zona da Mata mineira, muitas mulheres trabalham o ano todo, têm o produto vendido e, no fim, quem administra o dinheiro são os homens. “Não é passado para ela quanto o produto rendeu, e ela não participa das decisões sobre onde investir o dinheiro”, explicou.

Em Montes Claros, Norte de Minas, investimentos em profissionalização, saúde e educação são vistos como prioritários para Josiane Palma, responsável pela Associação Raiz de Davi, casa que oferece auxílio e cursos para mulheres vítimas de violência doméstica. Ela enfatiza a necessidade de oferecer uma estrutura para que as mulheres possam manter sua independência. “Onde estão as creches para que elas possam deixar os filhos enquanto trabalham?”, questionou.

O desemprego também é um fator que deve ser encarado nestas eleições sob a perspectiva de gênero. Para Bernardete Monteiro, da Marcha Mundial das Mulheres, com atuação na região Metropolitana de Belo Horizonte, nos últimos dois anos as mulheres têm sido as mais prejudicadas com as reformas trabalhistas e a PEC 241, que determinou o congelamento de gastos, incluindo saúde e educação. “Se você tem redução de vagas em UMEIs para uma faixa etária de crianças, quem vai ter que sair do trabalho para que as crianças não fiquem sozinhas são as mães”, exemplificou.

Lucimar Martins. Foto: Reprodução Facebook

Representatividade

Na região de Unaí, no Noroeste de Minas, existem poucas lideranças mulheres, que ainda são subjugadas e não têm autonomia para deliberarem porque dependem do crivo de homens. A afirmação é da professora Mirtes de Paula, diretora estadual do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas (Sind-UTE/MG) e articuladora do coletivo Quem Luta Educa. “A relação com o masculino está muito presente entre mulheres que ocupam cargos eletivos. Elas são filhas do ex-prefeito, do pastor, esposas ou irmãs de homens com tradição na política”. É justamente a falta de representatividade, opinou Mirtes, que faz com que não exista uma política que contemple amplamente a mulher nos municípios. “A (política para) saúde da mulher está limitada a um pré-natal ou a questões gestacionais”.

Nesse cenário, muitas mulheres abandonam espaços de luta por serem alvos de violência psicológica, lembrou Catarina Laborê, ativista e militante negra há mais de 20 anos, também diretora sindical no Sind-UTE/MG. “Ocorrem muitas suposições, ofensas e piadinhas, principalmente quando é uma mulher na liderança. Elas acabam ficando sem saída e quanto mais respondem, maior é a pressão que sofrem”, disse Catarina.

Foto: Arquivo pessoal

Na região do Triângulo mineiro, a carência de representatividade feminina na política também foi destacada por Dandara Tomazin, integrante do Conselho Nacional de Igualdade Racial e do coletivo de Juventude Negra Enegrecer, em Uberlândia. A relação de conservadorismo que os coronéis implantaram em Minas Gerais é intensificada no interior, e isso, aliado ao machismo, considera Dandara, coloca os corpos femininos em um lugar mais vulnerável. “Precisamos votar e eleger mulheres negras e do interior, não dá para ficar concentrada só na capital”, comentou ela.

Quando se trata de questões políticas, a mulher ainda é muito subjugada pela sociedade. Esta é a opinião da atual vereadora Béia Savassi, que foi primeira mulher eleita prefeita de Patos de Minas, na região do Alto-Paranaíba. Na Câmara da cidade, dos 17 vereadores, apenas três são mulheres. Para ela, a capacidade feminina nos espaços de poder é questionada por preconceito, e, para mudar esse quadro, a mulher precisa acreditar na sua força e no seu potencial, em primeiro lugar. “A partir daí, ela poderá alcançar grandes projetos e atuar diretamente na política, contribuindo para a construção de uma sociedade mais igualitária”, enfatizou.

Béia Savassi em inauguração do seu quadro na Prefeitura de Patos de Minas. Foto: Reprodução Facebook

No poder, ainda sem força

Liderança no Jequitinhonha e Mucuri, Ângela Freire atua no Grupo de Mulheres do município de Araçuaí. Para ela, os conselhos municipais de mulheres não conseguem atingir uma estrutura efetiva e ficam no trâmite só de se reunir. Com isso, “as ferramentas em defesa da mulher e de prevenção da violência acabam sendo inexistentes”. Um exemplo, cita ngela, é o Ônibus Lilás, que deveria atender as mulheres de baixa renda, periférica e rural da região, mas não circula por falta de gasolina ou de motorista.

A escolha de representantes preocupadas com a promoção de igualdade de gênero e a aplicação das políticas públicas voltadas para as mulheres já se mostra essencial. Porém, isso não basta para alcançar uma participação feminina produtiva em todo o Estado. Marlise Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem), da UFMG, lembra que as cidades do interior estão muito afastadas dos debates feministas, e os homens são quase nunca atentos e interessados nessas agendas.

Um bom começo para fortalecer a rede feminina no Estado é a criação de Conselhos Municipais de Mulheres, avalia Marlise, mencionando a experiência positiva do Nepem no Vale do Jequitinhonha, onde as questões das mulheres despertaram a mobilização nesses conselhos constituídos pela sociedade civil e ligados ao governo. “É uma estratégia para dar o start necessário para que as agendas de políticas de gênero sejam implantadas também no interior”, indicou Marlise.

Serviço
O acolhimento de mulheres em situação de violência em Minas Gerais é realizado por diferentes agentes da rede de enfrentamento, alguns sob responsabilidade dos municípios e outros do terceiro setor. Segundo a Secretaria de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania, sob responsabilidade do governo estadual, além das delegacias e dos hospitais, há o Centro Risoleta Neves de Atendimento à Mulher em situação de Violência (CERNA), na região metropolitana de Belo Horizonte.

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Reportagens > Especiais

Por mais mulheres negras na política

Publicado em 19/09/2018

Representatividade importa!

Nosso país foi construído pela garra das mulheres negras, mas essa parcela da população ainda é subrepresentada nas esferas de poder. Ao assassinarem Marielle, tentaram calar a voz de uma mulher eleita e de tantas outras que ela representava com seu mandato. O que não esperavam é que Marielle deixaria um legado. A vereadora carioca encorajou a candidatura de outras mulheres negras que juntas lutam por uma sociedade sem opressões. Entrevistamos candidatas negras que destacam a importância da representatividade para a construção de espaços políticos mais justos e plurais.

Imagens e edição: Bárbara Ferreira
Entrevistas e reportagem: Luiza Muzzi
Produção: Joana Suarez
Apoio de reportagem: Graziele Martins e Lara Alves
Realização: Campanha Libertas – Por mais mulheres na política
Apoio: ARTIGO 19 e Clube de Blogueiras Negras

 

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