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A desconstrução de uma trajetória pela misoginia

Publicado em 10/10/2018

Em 2010, o Brasil elegeu a sua primeira presidenta da República, algo visionário para uma democracia tão recente, mas que escancara o cenário de exclusão das mulheres dos espaços de poder. Oito anos depois, tivemos um crescimento relevante na representação feminina no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas de alguns estados. Minas Gerais dobrou o número de candidatas eleitas como deputadas estaduais. No entanto, as candidaturas ainda derrapam no machismo e na sociedade patriarcal, e muitas delas são vítimas de uma misoginia naturalizada e descarada. O maior exemplo está justamente na primeira mulher eleita para governar o país: ela não só foi um dos principais alvos desse mecanismo de exclusão, como continuou sendo durante a sua candidatura ao Senado por Minas e também após a derrota nas urnas.

Desde que assumiu a Presidência, Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), teve o seu trabalho e a sua capacidade questionados a todo instante por seus opositores e pela imprensa nacional. Após uma vitória apertada em 2014, e principalmente a partir do momento em que se instaura o processo de impeachment contra ela, as declarações sexistas e relacionadas a gênero se agravam, chegando ao ponto de uma revista questionar a sua sanidade mental e insinuar que ela se encontrava em estado de histeria – argumento frágil, mas comumente usado para desqualificar as mulheres.

Em um dos episódios mais marcantes da construção misógina do processo de impeachment da ex-presidenta, após um aumento dos preços dos combustíveis no país, um adesivo começou a ser utilizado pela população com uma imagem de Dilma de pernas abertas no local dos tanques de gasolina dos veículos. A peça insinuava que ela estaria sendo penetrada pelas bombas. Além disso, ao defender seu voto a favor da retirada de Dilma do poder, o deputado federal e atual candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) homenageou um dos homens que a torturou durante a Ditadura Militar.

A ex-presidenta em campanha por Minas – Crédito: Bárbara Ferreira

Após tantos episódios como este, que contribuíram diretamente para a descrença da população no trabalho de Dilma, e após a sua retirada do posto de Presidenta da República, um grupo de intelectuais e acadêmicas escreveu um livro que analisa toda a construção misógina do que chamam de golpe. Organizado pelas pesquisadoras do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (CULT), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a professora Linda Rubim e a jornalista Fernanda Argolo, e editado pela Editora da UFBA (Edufba), o livro “O Golpe na Perspectiva de Gênero” foi lançado em março deste ano.

Dilma denunciou várias vezes esse processo durante a sua candidatura ao Senado por Minas Gerais e, em um evento realizado com a militância feminina, relembrou que ao tomar posturas incisivas em meio a uma crise nacional, ao contrário do que era dito sobre os homens, “era chamada de dura; o homem seria firme”. “Era obsessiva ou compulsiva com o trabalho; o homem seria um empreendedor”, afirmou a ex-presidenta. Ela também comparou o seu tratamento com o recebido por outras mulheres que chegaram ao cargo máximo em seus países, como Cristina Krishner, na Argentina.

A pauta das mulheres

As manifestações de Dilma sobre a misoginia do processo de impeachment começaram em 2017, quando ela fez uma série de postagens em seu Twitter denunciando a violência que sofrera. “Quando governei, nada podia parecer certo. Fui inaugurar um aeroporto, e eles encontraram um banheiro pingando. Fizeram um escarcéu”, foi o primeiro de uma série de tweets sobre o tema. Já em 2018, a sua candidatura foi marcada pela defesa dos direitos das mulheres, tema abordado em todas as suas falas públicas na disputa em Minas Gerais.

Reprodução Twitter

Em um dos eventos da campanha, Dilma relembrou um momento em que foi questionada por uma jornalista por não ter chorado quando saiu do Palácio do Planalto. “As mulheres desse país são mulheres guerreiras. Uma vez me perguntaram: ‘Por que a senhora não chora?’. Se eu começasse a chorar eu choraria até agora. Eu não podia chorar. Mulher é quem engole o choro quando tem de lutar para alimentar seus filhos e sua família. Mulher engole o choro quando tem que sair para a rua e lutar para proteger os seus”, afirmou a ex-presidenta.

Ela foi chamada novamente de anta, vagabunda e desqualificada e, ao perder a vaga ao Senado, uma vez mais retornaram as mensagens de “Tchau, Querida”. Mesmo com tamanho bombardeio, Dilma Rousseff recebeu um total 2.709.223 votos no último domingo (7), ficando em quarto lugar na disputa por uma das vagas mineiras.

Dilma Rousseff em ato de campanha com a candidata a vice-presidenta Manuela d’Ávila – Crédito: Bárbara Ferreira

Trajetória

Dilma nasceu em Belo Horizonte, em 1947, cidade onde começa a sua militância política contra o regime militar. Em 1970, foi presa e torturada, sendo mantida até 1972 no presídio de Tiradentes, na capital paulista. Ao sair da prisão, muda-se para Porto Alegre, onde cursou a faculdade de economia e iniciou a sua trajetória política. Foi uma das fundadoras do Partido Democrático Trabalhista (PDT), muito conhecido pela atuação de Leonel Brizola, um deu seus principais nomes. Trabalhou na bancada gaúcha do partido entre 1980 e 1985.

No início da década de 1990, foi presidenta da Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul e, em 1993, elegeu Alceu Collares para o governo do Estado, se tornando secretária de Energia, Minas e Comunicação, cargo que ocupou novamente no fim da década, já em uma aliança com o PT, se filiando ao partido em 2000. Fez um exímio trabalho evitando o racionamento do Estado em 2001 e acabou tornando-se ministra de Minas e Energia em 2002.

Permaneceu no governo Lula, sendo também chefe da Casa Civil. Em 2010, Dilma se elege Presidenta da República, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo no Brasil.

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