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Em eleição histórica para as mulheres, Minas Gerais elege 14 candidatas, 40% a mais que na última disputa

Publicado em 08/10/2018

Foi em meio aos gritos de “Uh, é mulher preta” e “Marielle vive” que Áurea Carolina e Andréia de Jesus foram recebidas na sede do PSOL, no centro de BH, para celebração da dupla vitória nas urnas neste domingo (7). Vereadora mais votada de Belo Horizonte em 2016, Áurea conquistou sua cadeira na Câmara dos Deputados com mais de 162 mil votos, ocupando o 5º lugar de um ranking composto majoritariamente por homens. “Chegamos com a coragem de defender as nossas causas sem arredar o pé nenhum milímetro do que a gente acredita. Estamos aqui por mais de nós no poder: mais mulheres negras, mais LGBTs, mais pessoas com deficiências. Nós teremos um quilombo no Congresso Nacional”, falou Áurea em discurso, arrancando palmas de seu eleitorado.

Nesta eleição, com todo o esforço das mulheres e do movimento feminista em divulgar as candidaturas femininas, elas finalmente chegaram a 15% de representação no Congresso Nacional – uma conquista histórica no Brasil, aumentando cinco pontos percentuais em relação à atual legislatura. Na Câmara, foram eleitas 77 deputadas federais, contra 51 em 2014, um aumento de 51%. No Senado, que neste ano é renovado em dois terços de seus assentos, foram eleitas sete, mesmo número de 2010 – quando a renovação de vagas se deu na mesma proporção. Somadas à bancada atual, elas passam a representar 12 de um total de de 81 cadeiras.

Minas Gerais também fez bonito: elegemos 40% a mais de mulheres do que na última eleição geral. Em 2014, foram 10 mineiras, cinco para a Câmara dos Deputados e cinco para a Assembleia. Neste ano, embora tenhamos conquistado uma cadeira a menos no Congresso, dobramos o número de deputadas estaduais eleitas e, assim, chegamos a 14 representantes femininas no Poder Legislativo.

Articulação feminina

E o que motivou a mudança? Vários fenômenos atuaram na campanha deste ano e um deles com certeza foi o fato de elas se entenderem como grupo político e de força. “Vimos mulheres engajadas na tentativa de colocar outras mulheres na Câmara e de entender que essa categoria ‘mulher’ tem que ser discutida dentro do poder”, afirmou a cientista política Helga Almeida, da UFMG, citando o movimento #ELENÃO como a prova dessa intensa articulação política feminina.

Ao mesmo tempo, outro fenômeno foi o avanço da extrema direita, com muitos homens brancos, conservadores e religiosos eleitos. “Infelizmente, a força de um movimento leva a um movimento contrário. Mas também significa que as mulheres estão fortes, estão cobrando uma das outras para se defenderem – isso nunca tinha acontecido”, avaliou Helga. Para ela, o mais importante é que as mulheres e outras minorias estejam lá representadas, mesmo que não sejam só as feministas, já que, por serem mulheres, elas têm vivências comuns às suas pares e diferentes dos homens.

Negras no poder

Outra vitória foi para a representatividade negra. Das 14 eleitas por Minas, quatro são pretas – 28,5% do total. Na atual legislatura, não há nenhuma negra por nosso Estado. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) também nunca teve uma representante preta e, agora, terá três.

Marielle Franco, companheira de luta, foi citada o tempo todo na fala das candidatas vitoriosas Áurea e Andréia. “Eles (assassinos da vereadora carioca) erraram o cálculo. Eles acharam que iam nos pisotear. E estamos aqui firmes”, bradou Áurea, ao lado de Andréia, eleita para a ALMG com quase 18 mil votos. Moradora de Ribeirão das Neves, Andréia discursou sobre a força das mulheres de luta que ocupam espaços tão marginalizados na sociedade. “Somos, sim, mulheres pretas. Elegemos mulheres pretas para espaços de poder”, defendeu.

Foto: Mídia Ninja / Divulgacão Facebook

Quem são as mineiras?

Dentre as eleitas em Minas Gerais, a média de idade é 46 anos. A maioria é da região Central do Estado, principalmente Belo Horizonte, mas há representantes da Zona da Mata, do Norte, do Rio Doce e do Alto Paranaíba. Cinco conquistaram a reeleição e nove venceram pela primeira vez e vão estrear nas cadeiras políticas. Elas vêm de diferentes profissões, são cientista política, professora, policial, advogada, assistente social e servidora pública. Confira aqui o perfil das eleitas. 

Rosângela Reis (Podemos) foi reeleita para seu quarto mandato na ALMG com 70 mil votos e celebrou duplamente a vitória ao saber que o número de cadeiras para mulheres na Casa praticamente dobrou neste pleito. “Quando eu cheguei, éramos pouquíssimas. A concorrência é muito desigual. Para as mulheres é muito mais difícil”, afirmou. Ela disse ainda que acredita que esse fortalecimento vai fazer com o que as causas femininas tenham muito mais força.

Cerca de 71 mil eleitores escolheram a deputada estadual Marília Campos (PT) para exercer seu segundo mandato em Minas. Ela comemorou o aumento não só de mulheres, mas de uma bancada feminina progressista, que será fundamental no atual cenário político. “Não podemos deixar de olhar para o avanço do conservadorismo, mas ainda seguimos firmes na luta”, ponderou.

As demais mulheres eleitas pelos mineiros foram procuradas pela reportagem nesta segunda-feira (8), mas não retornaram. Em suas redes sociais, elas agradeceram aos eleitores pela vitória.

Para além da urna

A conquista feminina nesta eleição, no entanto, vai muito além do resultado das urnas, de quem ganhou ou não ganhou. Ela começou no dia em que coletivos feministas e diversas mulheres decidiram se unir para lutar contra a desigualdade nos espaços de poder, para colocar seus corpos nas ruas e na disputa eleitoral.  

Duda Salabert durante a campanha, em evento Contagem – Foto: Bárbara Ferreira

Primeira candidata travesti ao Senado brasileiro, Duda Salabert (PSOL) não foi eleita, mas saiu com a certeza de ter feito história. Ela escreveu nas suas redes sociais que 351 mil pessoas se sentiram representadas por ela – a maior votação de seu partido em Minas – mesmo “sem tempo para fazer campanha (pois leciono 40 aulas por semana), somente quatro segundos no tempo de TV e apenas R$ 15 mil”. Isso em um país cuja expectativa de vida de uma travesti, segundo Duda, é de 35 anos. “Sem dúvida, a maior vitória que tive foi ouvir centenas de narrativas que traziam o seguinte conteúdo: meu pai não me aceita, é muito preconceituoso, mas me disse que vai votar em você”, relatou, feliz por saber que sua candidatura simbolicamente serviu como “ponte para aproximar pais e filhos” e para desconstruir preconceitos.

A postulante fez questão de descrever mais sobre a sua campanha: “Mostramos que política não está só na economia, nas ideologias, nas lutas de classes; mostramos que política está no afeto, no simbólico, na união das famílias”. Toda a coordenação da campanha, continuou Duda, foi realizada por um homem trans; a comunicação ficou nas mãos de dois gays, e os colaboradores formaram a diversidade LGBTIQ+.

Encerramos essa reportagem, feita a várias mãos Libertas, fazendo da mensagem final de Duda as nossas palavras: “Nossa luta apenas começou. Hoje é o primeiro dia de campanha para as eleições de 2020! Não é nem um pouco confortável disputar uma eleição. Política é um espaço tóxico. Mas é necessário ocupá-la e transformá-la. Vamos juntas pois sonho que sonha junto é realidade.”

*Errata: A cor/raça da candidata Ana Paula Siqueira foi corrigida para preta – por um erro no levantamento, antes estava branca. Assim, 4 das 14 eleitas são pretas, 28,57% do total. O texto foi atualizado no dia 10 de outubro.

Deputadas Federais eleitas (MG)

Áurea Carolina (PSOL) Deputada Federal – 162.740 votos. Foto: Bárbara Ferreira
Margarida Salomão (PT) Deputada Federal – 89.378 votos. Foto: Bárbara Ferreira
Alê Silva (PSL) – Deputada Federal -48.043 votos. Foto: Reprodução Facebook
Greyce Elias (Avante) – Deputada Federal 37.620 votos. Foto: Reprodução Facebook

Deputadas Estaduais eleitas (ALMG)

Beatriz Cerqueira (PT) – Deputada Estadual – 96.824 votos. Foto: Reprodução Facebook
Delegada Sheila (PSL) – Deputada Estadual – 80.038 votos. Foto: Reprodução Facebook
Marília Campos (PT) – Deputada Estadual – 71.329 votos. Foto: Bárbara Ferreira
Rosângela Reis (Podemos) – Deputada Estadual – 70.040 votos. Foto: Reprodução Facebook
Celise Laviola (MDB) – Deputada Estadual 57.412 votos. Foto: Reprodução Facebook
Ione Pinheiro (DEM) – Deputada Estadual – 55.634 votos. Foto: Reprodução Facebook
Leninha (PT) – Deputada Estadual – 51.407 votos. Foto: Reprodução Facebook
Laura Serrano (Novo) – Deputada Estadual – 33.813 votos. Foto: Reprodução Facebook
Ana Paula Siqueira (Rede) – Deputada Estadual – 23.372 votos. Foto: Reprodução Facebook
Andreia de Jesus (PSOL) – Deputada Estadual – 17.689 votos. Foto: Reprodução Facebook

[A Campanha Libertas é um coletivo independente e suprapartidário. Todos os nossos textos podem ser republicados gratuitamente, desde que não sejam editados e tenham a assinatura da repórter que escreveu e o link campanhalibertas.org. Quer ser um republicador e saber mais sobre as nossas pautas? Escreva para campanhalibertas@gmail.com]

Reportagens > Especiais

“Agora é a hora de os movimentos feministas ocuparem o espaço político”

Publicado em 22/09/2018

Fala tranquila, sorriso constante no rosto e a vontade de fazer uma nova política marcam a campanha da única candidata mulher ao governo de Minas Gerais, Dirlene Marques (PSOL). Economista e professora aposentada da UFMG, a postulante defende que este é o momento de movimentos feministas ocuparem espaços de representação política. “As mulheres buscam entrar de forma diferente, rompendo com a lógica atual que o machismo impõe, de competitividade extrema, de passar a perna nos outros”, afirmou.

Seu programa de governo é o único a propor soluções detalhadas para enfrentar a violência contra a mulher e aumentar a representatividade feminina no mercado de trabalho. “Estamos fazendo um projeto de sociedade, e a questão da mulher passa por todos os pontos”, explicou Dirlene. Um de seus compromissos é ter, pelo menos, metade das secretarias ocupadas por mulheres.

Ela também busca mudar a lógica de como o Estado funciona. Ao invés de incentivar agronegócio e mineração, seu plano de governo propõe investimentos em outros setores. “Não temos que subsidiar empresas, elas podem andar com as próprias pernas. Vamos aplicar recurso onde o Estado tem a obrigação de funcionar bem: na saúde, educação, transporte, moradia e segurança”, defendeu.

Para isso, Dirlene quer eliminar incentivos fiscais a esses setores, cobrar impostos dos mais ricos e fomentar sistemas produtivos que também têm potencial de gerar emprego, como agricultura familiar, agroecologia e malharia. “É uma inversão de prioridade, vamos voltar a governar para seres humanos e não para o capital”, afirmou.

Acompanhe, a seguir, o podcast com trechos da entrevista que a Campanha Libertas fez com a candidata.

DIRLENE MARQUES

Cidade: Belo Horizonte – Minas Gerais
Idade: 71 anos
Cor/raça: Branca
Ocupação: Professora aposentada
Estado civil: Casada
Bens declarados: Tem R$ 1 milhão em apartamentos, terrenos, automóveis e investimentos
Site: http://www.dirlene.com

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Reportagens > Agenda

PartidA realiza roda de conversa com candidatas mineiras

Publicado em 21/09/2018

“Democracia feminista”, pregam as integrantes do movimento e são os dizeres estampados na bandeira da PartidA. Com o intuito de aumentar a participação das mulheres na política, mas com a preocupação de que elas sejam, de fato, comprometidas com o feminismo e com as mudanças necessárias para ampliar os direitos das mulheres, um grupo de candidatas em Minas Gerais se reúne em um só movimento. Suprapartidária e diversa, a PartidA realizou, na última terça-feira (18), uma roda de conversa com as aspirantes a cargos no pleito de 2018, e conseguiu ressaltar a pluralidade do movimento e a importância da união entre as mulheres.

Estiveram presentes candidatas aos cargos de deputada estadual, deputada federal, senadora e ao governo do Estado. Entre as falas de cada uma delas, a congruência era sempre na defesa dos direitos das mulheres e na importância de aumentar a representatividade em todas as instituições políticas do país. Cada uma ressaltou alguma particularidade ou causa específica. As dificuldades e a violência contra as mulheres trans foram o primeiro tópico da conversa, com as falas de Duda Salabert (PSOL) e Leandrinha Du Art (PSOL). Também entraram em pauta a luta das mães e a violência obstétrica, a questão das mulheres negras e periféricas, o direito dos animais, o ecofeminismo, a luta das educadoras e também a importância de um feminismo que englobe a desigualdade social.

Candidata ao Senado, Duda Salabert fala sobre a violência contra mulheres trans – Crédito: Bárbara Ferreira

Ao fim da conversa, a candidata a deputada estadual Marília Campos – a única petista entre as participantes, majoritariamente do PSOL – lembrou que para além das lutas identitárias é preciso pensar em justiça social e que é preciso garantir a unidade feminina não apenas no período eleitoral. O debate foi mediado pela professora Marlise Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem), da UFMG, que fechou o encontro falando do fato de a PartidA ser um movimento suprapartidário, mas ressaltando que são candidatas dentro do campo da esquerda.

Estiveram presentes a candidata a vice-governadora Sara Azevedo (PSOL), a candidata ao Senado Duda Salabert (PSOL), as candidatas a deputadas federais Adriana Araújo (PSOL), Maria da Consolação (PSOL) e Leandrinha Du Art (PSOL), e as candidatas à Assembleia Legislativa do Estado Polly do Amaral (PSOL), Kênia Ribeiro (PSOL) e Marília Campos (PT). A PartidA tem ao todo 20 candidatas disputando as eleições por Minas.

Movimento reúne candidatas em defesa das pautas feministas – Crédito: Bárbara Ferreira

O encontro aconteceu no Suricato, espaço que se dedica à luta dos portadores de transtornos mentais. Cerca de 50 mulheres participaram da roda, que foi transmitida ao vivo pelas redes sociais. Entre as perguntas da plateia, houve questionamentos sobre o aborto, e a sua descriminalização foi defendida com unanimidade entre as candidatas. O movimento PartidA é nacional e tem uma plataforma online para divulgar suas candidaturas que pode ser acessada em www.meuvotoserafeminista.com.br.

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