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Vítimas de violência doméstica disputam cargos no Legislativo para garantir combate aos crimes contra a mulher

Publicado em 04/10/2018

Ao chegar em casa depois de um longo dia no trabalho, a corretora de seguros Lucirene Lopes não conseguiu acionar o portão eletrônico da garagem do prédio em que vivia. Ao descer do carro e tentar abri-lo manualmente, ela encontrou seu ex-companheiro com uma pedra em punho, preparado para o ataque. Ela fugiu dele, que a perseguiu por toda a avenida Pedro II, em Belo Horizonte. Lucirene conseguiu refugiar-se em uma delegacia, mas o homem escapou.

Esse episódio ocorreu há cinco anos, e foi apenas um desdobramento do longo histórico de violência doméstica que Lucirene viveu após terminar o relacionamento. Ela fez mais de 15 boletins de ocorrência e tinha medida protetiva contra seu ex-companheiro. Ainda assim, o homem tocava a campainha de sua casa diariamente, cerca de quatro vezes ao dia. Ele a perseguia no trânsito, furava os pneus de seu carro e constantemente a ameaçava de morte.

O caso da corretora está entre as milhares de ocorrências de violência doméstica em Minas Gerais. Segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), o Estado registrou mais de 145 mil casos em 2017 – em média, uma mulher violentada a cada três minutos e meio. Isso considerando somente as que tiveram coragem para denunciar seu agressor.

Crédito: Elza Fiúza – Agência Brasil

Foi justamente o número alarmante da violência doméstica que encorajou mulheres com a história de Lucirene a ingressar na política. A coragem que elas tiveram de denunciar seus agressores no passado, reaparece agora na vontade de ocupar os espaços de poder e lutar pelas que ainda são vítimas. E o fortalecimento das pautas feministas fez com que as candidatas, que um dia foram vítimas, levantassem a bandeira da luta contra a violência de gênero.

Os casos de feminicídio computados estão crescendo. No ano passado, 433 mulheres foram vítimas de namorados, maridos, filhos ou ex-companheiros. O aumento foi de 9% se comparado com 2016. Muitos assassinatos aconteceram depois que a mulher conseguiu medida protetiva. “É preciso que as vítimas denunciem os agressores e tenham apoio para que entendam que o homem não vai mudar”, afirma Lucirene, que agora é Lu Brandão, concorrente a deputada federal pelo partido Podemos. Além dela, a Campanha Libertas conversou com outras quatro candidatas* a cargos no Legislativo que, em algum momento, se viram diante da violência doméstica em suas diversas formas.

Angélica Silva, candidata a deputada estadual pelo PHS

Durante muito tempo, Angélica Silva sofreu inúmeras tentativas de agressão por parte do pai de sua filha. “Eu chegava a dormir com uma faca embaixo do travesseiro”, diz. Ela defende que o Estado ofereça conforto às vítimas e garanta a existência de leis mais eficazes e rígidas para deter o agressor: “No primeiro instante que a mulher for à delegacia registrar uma queixa, o homem tem que ser recolhido antes que tenha tempo para cometer um homicídio”.

Angélica Silva – Crédito: DivulgaCand – TRE-MG

Gláucia Moreira, candidata a deputada estadual pelo PROS

A infância de Gláucia foi profundamente afetada pelas agressões físicas, verbais e psicológicas que o pai alcoólatra cometia contra a mãe. “É desesperador você saber que seu pai vai chegar do trabalho bêbado e será mais um dia de brigas, gritos e dor”, relata. Para a candidata, muitas mulheres não fazem denúncias porque não acreditam no cumprimento da Lei Maria da Penha. Gláucia quer cobrir as lacunas da legislação. “Vou lutar para criar espaços terapêuticos para apoiar todos os envolvidos: a mulher, os filhos e principalmente o agressor. Ele tem que ser consciente que ele é o principal causador de toda dor e sofrimento e que tem como ela sair dessa situação”.

Gláucia Moreira – Crédito: Arquivo Pessoal/Facebook

Lu Brandão, candidata a deputada federal pelo Podemos

A candidata Lu Brandão, da história relatada no início desta reportagem, também defende maior rigor no cumprimento da lei. “Tem que dar cadeia mesmo e um apoio psicológico tanto para a vítima quanto para a família dessa mulher. É preciso também mais abrigos, caso ela precise sair de casa”, argumenta. Lu tem aproveitado o período da campanha eleitoral para conscientizar as mulheres sobre a importância de denunciar seus agressores. Para ela, é imprescindível instruir as lideranças comunitárias dos bairros para dar esse suporte emocional às vítimas. A postulante do Podemos defende ainda a discussão sobre violência doméstica e igualdade de gênero em âmbito escolar, com o intuito de combater uma violência que é estrutural.

Lu Brandão – Crédito: Arquivo Pessoal

Mariah Brochado, candidata a deputada federal pelo DC

Ex-secretária adjunta da Casa Civil e professora da Faculdade de Direito da UFMG, Mariah Brochado disputa pela primeira vez as eleições. Ao longo de suas trajetórias pessoal e profissional, ela enfrentou inúmeras situações de violência contra a mulher, sua principal bandeira no pleito. Se eleita, pretende trabalhar para garantir o total cumprimento da Lei Maria da Penha. “Além de cursos de conscientização dos profissionais que trabalham combatendo a violência em seus vários níveis, é importante ter uma rede de acolhimento espalhada com mais vigor por Minas, de modo que o primeiro passo da mulher não tenha que ser ir até à polícia, mas se socorrer em um espaço de acolhimento dialógico”. Mariah acredita que a solução passa por formar defensoras públicas populares. “Para que a própria colega ou vizinha de bairro tenha sensibilidade de acolher aquela mulher”, pontua.

Mariah Brochado – Crédito: Arquivo Pessoal/Facebook

Renata Regina, candidata a deputada federal pelo PCB

“Violência doméstica atinge em nível pessoal toda e qualquer mulher”. Diante do seu passado como vítima de um relacionamento abusivo, sendo militante e feminista, a candidata Renata Regina tece suas propostas para combater esse tipo de violência. Ela acredita que uma medida viável a curtíssimo prazo é a ampliação das casas abrigo e o estabelecimento de uma rede segura de comunicação entre elas. “Também precisamos ampliar os mecanismos de divulgação dos meios que a gente tem para denunciar e dos programas de proteção às vítimas”, defende. No âmbito econômico, Renata buscará estabelecer um projeto de lei que garanta a destinação de no mínimo 1% do PIB para o combate à violência contra a mulher e a promoção da igualdade de gênero. “Precisamos ampliar as delegacias especializadas no atendimento às mulheres”.

Renata Regina – Crédito: Arquivo Pessoal/Facebook

Na contramão, um homem sem propostas

Protegido por seu polêmico slogan “Vote em mim, se não você vai morrer”, o delegado Edson Moreira disputa eleições pela terceira vez. Candidato do PR, Moreira tenta o cargo de deputado federal, já tendo sido o terceiro vereador mais votado de Belo Horizonte, em 2012. O postulante ganhou projeção nacional ao trabalhar na investigação do assassinato da ex-modelo Eliza Samúdio, em 2010, pelo goleiro Bruno Fernandes.

Na propaganda eleitoral veiculada no dia 13 de setembro, o candidato aparece por poucos segundos e repete a frase: “65 mil assassinatos! Mulheres jogadas pelas janelas. Vote pela sua segurança! Se não você vai morrer”. A frase remete ao feminicídio de Tatiane Spitzner, advogada que foi jogada do quarto andar de seu apartamento pelo marido, no Paraná, em julho deste ano.

Propaganda Eleitoral de Edson Moreira

Na prática, pouco se sabe sobre as propostas concretas do candidato para proteger as mulheres. A reportagem entrou em contato com a assessoria de Moreira por telefone, por e-mail e por suas redes sociais. Não houve retorno. A assessoria chegou a visualizar as mensagens, mas não se pronunciou sobre possíveis propostas de Edson Moreira relacionadas ao tema.

Uma das melhores leis do mundo

A Lei Maria da Penha é considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das três melhores legislações do mundo relacionadas ao enfrentamento da violência contra a mulher. Sancionada em agosto de 2006 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu objetivo é proteger mulheres (heterossexuais, homossexuais ou transexuais) que estão em situação de vulnerabilidade diante de agressores – pode ser o companheiro, um parente ou qualquer outra pessoa de seu convívio. A Maria da Penha também contempla situações de violência psicológica, danos materiais, difamação e calúnia.

A legislação é considerada inovadora por:

– Proibir penas pecuniárias, como doação de cestas básicas, garantir a prisão em flagrante do agressor; e autorizar que policiais solicitem medidas protetivas para a mulher em situação de violência;
– Permitir que juízes decretem prisão preventiva do agressor quando houver risco à integridade da mulher e que determinem o comparecimento obrigatório dele em programas de recuperação e reeducação.

A luta de Maria da Penha, vítima de violência doméstica, garantiu a criação da lei que leva seu nome – Crédito: Instituto Maria da Penha

É preciso “meter a colher”

O grupo de pesquisa Tramas Comunicacionais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) desenvolve, desde 2013, o projeto de pesquisa “Narrativas de um problema cotidiano: a violência de gênero e o testemunho jornalístico”. O objetivo é entender como a violência contra a mulher é tematizada na cobertura jornalística – muitas vezes de forma episódica.

A equipe realiza entrevistas com jornalistas, mulheres vítimas de agressão e seus agressores. Um dos primeiros apontamentos da pesquisa foi tratar essa violência como “crimes de proximidade”. São crimes violentos que envolvem não apenas relações de cunho amoroso, afetivo e sexual. “Nós não falamos em violência doméstica porque queremos romper com essas dicotomias de que o doméstico é privado, porque o que é doméstico também é público”, explica Isabelle Chagas, mestranda do grupo de pesquisa.

Para Isabelle, a violência doméstica se dá num contexto em que não é possível esquecer da perspectiva de gênero. Em entrevistas feitas com homens agressores, os pesquisadores constataram que a violência é usada por eles como um mecanismo de dominação sobre as mulheres. “Eles usam a violência não em momentos em que se sentem poderosos, mas quando sentem que estão perdendo algum poder sobre elas”, explica a mestranda.

Crédito: Marcos Santos – USP – Agência Brasil

Isabelle entende que só o cumprimento da Lei Maria da Penha e mecanismos de combate e prevenção vão solucionar o problema. “A Maria da Penha garante toda uma rede de apoio às mulheres, que nem sempre é cumprida”, argumenta ela. Nas entrevistas, muitas falaram em uma continuidade da violência quando vão às delegacias, aos tribunais, quando são atendidas pelos médicos. A pesquisadora também defende um trabalho com foco nos agentes de violência: “Não podemos nos centrar só no caráter punitivo”.

*As entrevistadas foram escolhidas a partir dos formulários enviados pela Campanha Libertas a todas as candidatas que disputam algum cargo em Minas Gerais. O critério foi a agilidade da resposta à solicitação enviada por e-mail.

Onde procurar ajuda?

Se você é vítima de violência ou conhece alguma mulher que esteja sofrendo qualquer tipo de agressão, denuncie. Em Belo Horizonte, as mulheres podem encontrar apoio nos seguintes locais:

Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher: avenida Augusto de Lima, 1942, Barro Preto. (31) 3295-6913
Casa Benvinda (Centro de Apoio à Mulher): rua Hermílio Alves, 34, Santa Tereza. (31) 3277-4380
Centro Risoleta Neves de Atendimento (Cerna): avenida Amazonas, 558, Centro. (31) 3270-3235
Centro de Apoio às Vítimas de Violência Intrafamiliar: rua Espírito Santo, 505, Centro. (31) 3277-9761
Defensoria Pública de Defesa da Mulher: avenida Amazonas, 558, 2º andar, Centro. (31) 3270-3202 ou (31) 3270-3200
18º Promotoria Especializada no Combate à Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher: avenida Álvares Cabral, 1881, Santo Agostinho. (31) 3337-6996

Além dos canais presenciais, denúncias podem ser feitas por telefone:

Central de Atendimento à Mulher: 180
Serviço de Emergência da Polícia Militar: 190

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Da militância para os espaços de poder: mulheres defendem causas diversas nestas eleições

Publicado em 02/10/2018

Em 2014, o Brasil elegeu um Congresso Nacional branco, masculino, comprometido com pautas empresariais, ruralistas e religiosas. Vários foram os retrocessos para a população que não está bem representada no Parlamento atual. De 2016 para cá, nenhuma terra indígena foi homologada pelo governo federal. A Emenda Constitucional 95/16, que congelou os gastos públicos com saúde e educação, deve aprofundar ainda mais desigualdades socioeconômicas na sociedade, já tendo impactos maiores entre os mais pobres. Em 2018, nenhuma proposta que assegura direitos a gays, lésbicas, bissexuais e transexuais foi aprovada. O “Pacote do Veneno”, conjunto de medidas que flexibiliza a produção e venda de agrotóxicos no Brasil, foi aprovado em maio deste ano.

Esse quadro nos mostra a necessidade de eleger políticos que sejam o retrato de uma sociedade diversa e se comprometam com causas que impactam a vida de todos, como serviços públicos de qualidade, segurança e preservação do meio ambiente. Muitas mulheres decidiram entrar na disputa eleitoral de 2018 porque entenderam que conquistar a política institucional é uma forma de terem suas demandas ouvidas. Elas têm pautas distintas, mas uma certeza comum: é preciso ocupar o Poder Legislativo se quiserem aprovar leis que contemplem suas lutas.

Aos eleitores, fica a missão de escolher bem em quem votar para mudar o último Congresso eleito. Por ser uma disputa ainda desigual em visibilidade entre homens e mulheres, a população também precisa desenvolver o hábito de pesquisar os(as) candidatos(as) e participar da política; não basta assistir propagandas e receber panfletos. Um dos caminhos para decidir o voto é pensar nas causas em que você acredita e quer que sejam prioritárias no governo e votar naqueles que as defendam claramente. A Campanha Libertas destacou algumas importantes pautas de defesa e exemplos de candidatas mineiras que carregam essas bandeiras na vida e, agora, nas eleições (veja abaixo). Nossa plataforma é um espaço sempre aberto para que mais mulheres apresentem suas propostas aos leitores (envie um email para campanhalibertas@gmail.com).

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“A dificuldade não é trazer as mulheres, mas fazer com que elas fiquem sem sofrer o assédio dos homens”

Publicado em 27/09/2018

Uma filiada ao MDB tinha tudo para conseguir uma votação expressiva neste ano para conquistar uma cadeira de deputada federal. Em seu perfil, sobravam requisitos para uma candidatura competitiva. Ela tinha vivência no núcleo feminino de Minas Gerais, havia participado de outras campanhas e era reconhecida na região onde vive pelo trabalho social que desenvolve na área da saúde. Lançou-se como pré-candidata, e se sentia preparada para o desafio. Mas o seu sonho acabou antes mesmo do início da corrida eleitoral. “Um deputado federal homem a vetou na chapa, sem motivo algum”, revela a presidente do MDB Mulher Minas, Maria Aparecida Andrade Moura.

Situações como essa ocorrem constantemente, segundo a presidente do MDB Mulher, e são um dos maiores desafios para garantir a real inserção da mulher no cenário político. Maria Aparecida relata que quando uma liderança feminina desponta como candidata passa a ser assediada pelos homens, que chegam a oferecer diversas vantagens para assegurar que ela não dispute as eleições. Para eles, é mais vantajoso que elas sejam apenas seus cabos eleitorais. “Temos que descobrir uma fórmula para fazer com que os homens deem licença de verdade para que elas sejam candidatas”, analisa.

Para Maria Aparecida, um dos principais entraves para mudar esse cenário é a falta de autonomia das mulheres. “Somos respeitadas por nosso trabalho, mas ainda somos sacrificadas, porque são eles que decidem”, comenta.

Todas as legendas são obrigadas por lei a destinar 5% do Fundo Partidário a ações que incentivem a participação feminina na política. Neste ano, essa porcentagem totalizou R$ 44,4 milhões. O montante tem que ser dividido entre todos os partidos regularizados no Tribunal Superior Eleitoral, de acordo com as regras dispostas em lei.

O dinheiro chega ao MBD Mulher, mas, na prática, ainda é necessário validar com os homens, que comandam de fato a legenda e a forma como o recurso será distribuído. “Não temos autonomia financeira, porque a lei e o estatuto do partido não permitem. Dependemos do favor e do reconhecimento dos homens”, afirma Maria Aparecida.

Mulheres preparadas

Mesmo com todas as dificuldades, o MDB Mulher de Minas Gerais se orgulha de ter conseguido formar, para as eleições de 2018, um grupo de pré-candidatas maior do que as vagas destinadas para elas. Para Maria Aparecida, esse é o resultado de um trabalho que não acontece apenas no período eleitoral.

Segundo a presidente, as filiadas ao MDB são estimuladas a participar de encontros regionais, rodas de conversa, cursos de formação política e a estar presentes na vida partidária. As candidatas que concorrem neste ano também participaram de capacitações e têm acesso a  consultorias da legenda. Ainda que com atraso, elas também receberam o recurso dos 30% do Fundo Especial destinados às mulheres. “Antes, elas dependiam de alianças até para fazer santinho. Hoje, estão usando esse dinheiro, mesmo ele sendo pouco em relação ao valor que os homens receberam”, diz Maria Aparecida.

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Reportagens > Especiais

Campanha Libertas lança planilha com lista, perfil e entrevistas das candidatas mineiras

Publicado em 27/09/2018

Para ajudar os eleitores na escolha de seus votos, a Campanha Libertas disponibiliza, nesta quinta-feira (27), uma planilha com informações sobre as 652 candidatas mineiras que estarão nas urnas no próximo dia 7 de outubro. O material foi produzido para complementar o Mapa das Candidatas, lançado na semana passada. Com a planilha, é possível visualizar em um só clique a lista de todas as concorrentes de Minas Gerais e conhecer seus sites, páginas e perfis nas redes sociais, que foram incluídos após busca minuciosa da equipe Libertas por todas as postulantes do Estado. Assim como no mapa, a lista no Excel permite aplicar filtros de busca por partido, cargo que disputa, cor/raça, ocupação, município, região e se concorre à reeleição ou não. Já foram excluídas do levantamento as candidaturas indeferidas e consideradas inaptas pela Justiça Eleitoral.

Outra novidade disponível no site é o acesso às respostas dadas pelas candidatas por meio do Libertas Entrevista. No fim de agosto, a Campanha Libertas enviou formulários para todas as candidatas mineiras, através dos e-mails disponibilizados pelos partidos e registrados no Tribunal Regional Eleitoral de Minas (TRE-MG). As questões abordavam as principais propostas, as políticas direcionadas às mulheres e os posicionamentos com relação a quatro temas polêmicos: descriminalização do aborto, descriminalização da maconha, escola sem partido e estatuto da família (não reconhecimento de famílias LGBT). As respostas foram compiladas em outra planilha que também está disponível para consulta – as candidatas que ainda quiserem responder ao formulário podem enviar e-mail para campanhalibertas@gmail.com.

 

Consulte aqui a lista de todas as candidatas mineiras. Encontre as páginas de cada uma delas e veja as respostas que deram às perguntas feitas pela Campanha Libertas (os retornos foram colocados na íntegra, sem qualquer edição).

Reportagens > Cotas das candidatas

Candidatas mineiras com poucos votos em 2016 voltam à disputa eleitoral

Publicado em 26/09/2018

Em 2016, Áurea Carolina (PSOL) recebeu 17.420 votos e foi a vereadora mais votada de Belo Horizonte. Uma vitória inédita. Em 2018, ela resolveu disputar novamente: agora aspira a uma cadeira na Câmara dos Deputados e batalha em sua campanha para repetir o feito nas urnas. A dobradinha das mulheres que pleiteiam um cargo de vereadora em uma eleição e, dois anos depois, concorrem a deputada estadual ou federal não é novidade no meio político. No entanto, poucas candidatas conseguem o resultado da vereadora do PSOL. Algumas recebem uma quantidade significativa de votos, mas não se elegem e aproveitam a projeção conquistada para uma próxima disputa. O problema, porém, são as candidatas que recebem uma baixa quantidade de votos para vereadora e retornam às urnas buscando vagas estaduais ou federais de forma duvidosa.

Entre as 260 mineiras que disputam estas eleições e não possuem perfis online rastreáveis – dado apresentado nesta terça-feira (25) pela Campanha Libertas – a reportagem encontrou 17 que apareceram no pleito municipal de 2016 e receberam menos de 20 votos, o que representa ao menos 6,5% de candidaturas inexpressivas. Muitas delas, inclusive, tiveram seus registros deste ano indeferidos pela Justiça Eleitoral.

A ausência dessas mulheres nas campanhas eleitorais e na internet reforça a suspeita do uso de laranjas por partidos políticos para o cumprimento da cota de gênero. A lei exige que cada partido ou coligação preencha no mínimo 30% de suas vagas com candidaturas femininas. Segundo levantamento da Campanha Libertas, a maior parte das 17 está inapta para concorrer por “ausência de requisito de registro”, isto é, quando as legendas não submetem todos os documentos necessários a uma candidatura nos órgãos da Justiça Eleitoral, Federal e Estadual.

Novo levantamento

Com base nos resultados das eleições de 2016 divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral de Minas (TRE-MG) e na pesquisa da Campanha Libertas pelas páginas virtuais das candidatas mineiras atuais, a reportagem fez um cruzamento de dados e chegou ao total de 42 mulheres (das 260 postulantes desconectadas) que fazem a dobradinha vereadora 2016 / deputada 2018. São 21 concorrentes ao cargo estadual e 21 ao federal neste ano. Confira o levantamento e o perfil das candidatas que tiveram menos de 20 votos há dois anos:

Caso se repete

Lúcia*, dona de casa, tinha 41 anos quando concorreu ao cargo de vereadora. O município em que ela vive tinha quase cinco mil habitantes e o candidato mais votado, naquelas eleições, recebeu 274 votos. À época, concorreu pelo PTdoB e recebeu apenas 5 votos. Dois anos depois ela volta à corrida eleitoral, desta vez pelo Avante, mas teve sua candidatura a deputada estadual indeferida na última semana por não entregar todos os documentos solicitados pela Justiça.

Situação semelhante aconteceu com Daniela*. Com 59 anos de idade em 2016, a candidata disputou a vereança de sua cidade, que tinha cerca de 3.600 habitantes na época. Ela também disputou pelo PTdoB e recebeu somente 1 voto. Neste ano, ela tentaria o cargo de deputada federal pelo Avante, assim como Lúcia, no entanto, sua candidatura foi igualmente indeferida.

Os casos até poderiam ser considerados isolados, se não fosse a repetição da situação com candidatas de outros municípios. São nove (de 17) postulantes que concorreram em 2016 pelo PTdoB e tiveram menos de 20 votos. O curioso é que essas mesmas mulheres trocaram de partido e, agora, em 2018, aspiram ao Legislativo pelo Avante, sendo que sete delas já tiveram suas candidaturas indeferidas.

O Avante, aliás, é o segundo colocado no ranking de indeferimentos de candidaturas já estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Até o momento, 26 candidaturas do partido foram consideradas inaptas para a disputa de 2018, sendo 22 dessas de mulheres. A Campanha Libertas procurou a legenda para esclarecimentos, mas não recebeu nenhuma resposta.

Avante, PRTB e PSL lideram candidaturas desconectadas

Trinta e três dos 35 partidos contavam com pelo menos uma candidata sem rastro de campanha política na internet, na primeira semana de setembro, quando foi feito o levantamento da Campanha Libertas. O próprio Avante lidera a lista de siglas que mais registraram situações de possíveis laranjas, seguido por PRTB e PSL. As siglas têm, respectivamente, 33, 24 e 21 mulheres sem perfis online, o que corresponde a uma participação de 8% a 12,7% no total de candidaturas não rastreáveis. O problema é mais comum entre as deputadas estaduais: são 158 desconectadas, que não possuem páginas para divulgar a própria candidatura.

Arte Pollyanna Dias

Em agosto, a Campanha Libertas noticiou que o Ministério Público Eleitoral havia pedido a impugnação das candidaturas do Avante pelo descumprimento à cota de gênero. Na época, o partido alegou que o MP Eleitoral se equivocou no pedido e que até 7 de setembro teria a chapa completa, observando o critério de proporcionalidade entre homens e mulheres. Nossa reportagem também conversou com mulheres do PRTB, que denunciaram a falta de apoio do partido.

A Campanha Libertas tem procurado todos os partidos desde a semana passada. Nenhum dos três que lideram o ranking de candidatas desconectadas responderam aos questionamentos da reportagem.

Os 10 partidos com mais candidatas que “não existem” online

Avante: 33
PRTB: 24
PSL: 21
PHS: 19
PSC: 18
PROS: 15
PTB: 15
PTC: 13
PPL: 12
DC: 10

*Para evitar possíveis retaliações às candidatas, a Campanha Libertas optou por preservar seus nomes nesta reportagem

Veja também: Um terço das candidatas mineiras não existem na internet

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Reportagens > Agenda

PartidA realiza roda de conversa com candidatas mineiras

Publicado em 21/09/2018

“Democracia feminista”, pregam as integrantes do movimento e são os dizeres estampados na bandeira da PartidA. Com o intuito de aumentar a participação das mulheres na política, mas com a preocupação de que elas sejam, de fato, comprometidas com o feminismo e com as mudanças necessárias para ampliar os direitos das mulheres, um grupo de candidatas em Minas Gerais se reúne em um só movimento. Suprapartidária e diversa, a PartidA realizou, na última terça-feira (18), uma roda de conversa com as aspirantes a cargos no pleito de 2018, e conseguiu ressaltar a pluralidade do movimento e a importância da união entre as mulheres.

Estiveram presentes candidatas aos cargos de deputada estadual, deputada federal, senadora e ao governo do Estado. Entre as falas de cada uma delas, a congruência era sempre na defesa dos direitos das mulheres e na importância de aumentar a representatividade em todas as instituições políticas do país. Cada uma ressaltou alguma particularidade ou causa específica. As dificuldades e a violência contra as mulheres trans foram o primeiro tópico da conversa, com as falas de Duda Salabert (PSOL) e Leandrinha Du Art (PSOL). Também entraram em pauta a luta das mães e a violência obstétrica, a questão das mulheres negras e periféricas, o direito dos animais, o ecofeminismo, a luta das educadoras e também a importância de um feminismo que englobe a desigualdade social.

Candidata ao Senado, Duda Salabert fala sobre a violência contra mulheres trans – Crédito: Bárbara Ferreira

Ao fim da conversa, a candidata a deputada estadual Marília Campos – a única petista entre as participantes, majoritariamente do PSOL – lembrou que para além das lutas identitárias é preciso pensar em justiça social e que é preciso garantir a unidade feminina não apenas no período eleitoral. O debate foi mediado pela professora Marlise Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem), da UFMG, que fechou o encontro falando do fato de a PartidA ser um movimento suprapartidário, mas ressaltando que são candidatas dentro do campo da esquerda.

Estiveram presentes a candidata a vice-governadora Sara Azevedo (PSOL), a candidata ao Senado Duda Salabert (PSOL), as candidatas a deputadas federais Adriana Araújo (PSOL), Maria da Consolação (PSOL) e Leandrinha Du Art (PSOL), e as candidatas à Assembleia Legislativa do Estado Polly do Amaral (PSOL), Kênia Ribeiro (PSOL) e Marília Campos (PT). A PartidA tem ao todo 20 candidatas disputando as eleições por Minas.

Movimento reúne candidatas em defesa das pautas feministas – Crédito: Bárbara Ferreira

O encontro aconteceu no Suricato, espaço que se dedica à luta dos portadores de transtornos mentais. Cerca de 50 mulheres participaram da roda, que foi transmitida ao vivo pelas redes sociais. Entre as perguntas da plateia, houve questionamentos sobre o aborto, e a sua descriminalização foi defendida com unanimidade entre as candidatas. O movimento PartidA é nacional e tem uma plataforma online para divulgar suas candidaturas que pode ser acessada em www.meuvotoserafeminista.com.br.

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Por mais mulheres negras na política

Publicado em 19/09/2018

Representatividade importa!

Nosso país foi construído pela garra das mulheres negras, mas essa parcela da população ainda é subrepresentada nas esferas de poder. Ao assassinarem Marielle, tentaram calar a voz de uma mulher eleita e de tantas outras que ela representava com seu mandato. O que não esperavam é que Marielle deixaria um legado. A vereadora carioca encorajou a candidatura de outras mulheres negras que juntas lutam por uma sociedade sem opressões. Entrevistamos candidatas negras que destacam a importância da representatividade para a construção de espaços políticos mais justos e plurais.

Imagens e edição: Bárbara Ferreira
Entrevistas e reportagem: Luiza Muzzi
Produção: Joana Suarez
Apoio de reportagem: Graziele Martins e Lara Alves
Realização: Campanha Libertas – Por mais mulheres na política
Apoio: ARTIGO 19 e Clube de Blogueiras Negras

 

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Candidatas do PSDB de Minas iniciam trajetória política

Publicado em 09/09/2018

Minas Gerais não tem uma mulher do PSDB eleita como deputada desde 2010. Nas eleições de 2014, o partido conseguiu eleger sete representantes na esfera federal e nove na estadual, todos homens. É esse o cenário a ser revertido no pleito de 2018 pela ala tucana dedicada ao sexo feminino, que está sob nova gestão. A presidente atual, Walewska Barros Abrantes, assumiu o posto em abril deste ano, após a saída da então presidente, Gláucia Brandão – que trocou de partido para concorrer como deputada estadual.

Nos primeiros meses à frente do PSDB Mulher, Walewska se dedicou à tarefa de criar um grupo complementar de candidatas, com bandeiras específicas. Saúde, educação e empreendedorismo aparecem como pautas principais das 20 postulantes que concorrerão em 2018. “Contamos com candidatas que representam a sociedade em suas diversas especificidades”, detalhou.

Em entrevista à Campanha Libertas, a presidente do PSDB Mulher explicou que todas as candidatas contam com assessor próprio, além de apoio de contador e advogado. Elas também participaram de cursos sobre oratória, políticas públicas e responsabilidades de cada esfera de poder. As capacitações foram feitas em parceria com o Instituto Teotônio Vilela (do próprio partido) e com a fundação política alemã Konrad Adenauer.

Parceria x enfrentamento

Esse movimento feminino no partido tem sido recebido com surpresa pelos candidatos homens. Muitos filiados perguntaram sobre a necessidade da lei de cotas, sem perceber como a representação feminina nos cargos públicos ainda é falha. “Estamos conduzindo esse processo de forma parceira, e não com enfrentamento. Assim, a aceitação fica mais positiva”, comentou Walewska.

Apesar disso, as postulantes ainda sofrem com a falta de projeção. Nenhuma delas têm padrinho político ou trajetória recente em algum cargo eletivo. Para a presidente do PSDB Mulher, o fato de elas não estarem inseridas na esfera pública as coloca atrás na corrida eleitoral. “Quem está no poder é visto mais vezes”, opinou.

Walewska Barros Abrantes, presidente do PSDB Mulher de Minas (Crédito: Marcela Káritas)

Mineiras sem dinheiro

Em seu site, o PSDB destaca o fato de ter sido o primeiro partido a acatar, em junho, à legislação que garante às mulheres 30% das vagas de candidatos, dos recursos do Fundo Partidário e do tempo de televisão – ainda que isso fosse obrigação de todos, prevista em lei.

Os critérios para a distribuição do recurso financeiro na legenda foram estabelecidos durante reunião da Executiva Nacional. O repasse será maior para aquelas que já estiveram em cargos eletivos, já disputaram eleições ou já conduziram trabalhos relevantes em cargos públicos. Nessa conta, as 20 tucanas mineiras inexperientes já saíram perdendo. “Elas ainda necessitam de maturidade política”, justificou Walewska, já que as candidatas de outros Estados devem receber mais dinheiro.

Ainda que as postulantes de Minas não alcancem o cargo público almejado, o PSDB Mulher do Estado acredita que está em um caminho sem volta. “A gente precisa tomar frente e fazer uma construção permanente”, completou Walewska. Nas próximas eleições, em 2020, o objetivo é continuar rumo ao aumento da representação feminina. “Pode ser que algumas candidatas tenham votação baixa, mas todas foram preparadas para disputar e têm o acolhimento do partido. Não temos candidatas laranja”, garantiu.

*Errata: Atualizamos essa matéria em 10/09/2018 para corrigir a seguinte informação: Minas Gerais já teve mulheres do PSDB eleitas como deputadas em outros pleitos, diferentemente do que informamos na primeira versão deste texto. As últimas eleitas foram Ana Maria Resende e Elbe Brandão. Elas exerceram o mandato até 2010, no cargo de deputada estadual.

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