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“A dificuldade não é trazer as mulheres, mas fazer com que elas fiquem sem sofrer o assédio dos homens”

Publicado em 27/09/2018

Uma filiada ao MDB tinha tudo para conseguir uma votação expressiva neste ano para conquistar uma cadeira de deputada federal. Em seu perfil, sobravam requisitos para uma candidatura competitiva. Ela tinha vivência no núcleo feminino de Minas Gerais, havia participado de outras campanhas e era reconhecida na região onde vive pelo trabalho social que desenvolve na área da saúde. Lançou-se como pré-candidata, e se sentia preparada para o desafio. Mas o seu sonho acabou antes mesmo do início da corrida eleitoral. “Um deputado federal homem a vetou na chapa, sem motivo algum”, revela a presidente do MDB Mulher Minas, Maria Aparecida Andrade Moura.

Situações como essa ocorrem constantemente, segundo a presidente do MDB Mulher, e são um dos maiores desafios para garantir a real inserção da mulher no cenário político. Maria Aparecida relata que quando uma liderança feminina desponta como candidata passa a ser assediada pelos homens, que chegam a oferecer diversas vantagens para assegurar que ela não dispute as eleições. Para eles, é mais vantajoso que elas sejam apenas seus cabos eleitorais. “Temos que descobrir uma fórmula para fazer com que os homens deem licença de verdade para que elas sejam candidatas”, analisa.

Para Maria Aparecida, um dos principais entraves para mudar esse cenário é a falta de autonomia das mulheres. “Somos respeitadas por nosso trabalho, mas ainda somos sacrificadas, porque são eles que decidem”, comenta.

Todas as legendas são obrigadas por lei a destinar 5% do Fundo Partidário a ações que incentivem a participação feminina na política. Neste ano, essa porcentagem totalizou R$ 44,4 milhões. O montante tem que ser dividido entre todos os partidos regularizados no Tribunal Superior Eleitoral, de acordo com as regras dispostas em lei.

O dinheiro chega ao MBD Mulher, mas, na prática, ainda é necessário validar com os homens, que comandam de fato a legenda e a forma como o recurso será distribuído. “Não temos autonomia financeira, porque a lei e o estatuto do partido não permitem. Dependemos do favor e do reconhecimento dos homens”, afirma Maria Aparecida.

Mulheres preparadas

Mesmo com todas as dificuldades, o MDB Mulher de Minas Gerais se orgulha de ter conseguido formar, para as eleições de 2018, um grupo de pré-candidatas maior do que as vagas destinadas para elas. Para Maria Aparecida, esse é o resultado de um trabalho que não acontece apenas no período eleitoral.

Segundo a presidente, as filiadas ao MDB são estimuladas a participar de encontros regionais, rodas de conversa, cursos de formação política e a estar presentes na vida partidária. As candidatas que concorrem neste ano também participaram de capacitações e têm acesso a  consultorias da legenda. Ainda que com atraso, elas também receberam o recurso dos 30% do Fundo Especial destinados às mulheres. “Antes, elas dependiam de alianças até para fazer santinho. Hoje, estão usando esse dinheiro, mesmo ele sendo pouco em relação ao valor que os homens receberam”, diz Maria Aparecida.

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Candidatas do PSDB de Minas iniciam trajetória política

Publicado em 09/09/2018

Minas Gerais não tem uma mulher do PSDB eleita como deputada desde 2010. Nas eleições de 2014, o partido conseguiu eleger sete representantes na esfera federal e nove na estadual, todos homens. É esse o cenário a ser revertido no pleito de 2018 pela ala tucana dedicada ao sexo feminino, que está sob nova gestão. A presidente atual, Walewska Barros Abrantes, assumiu o posto em abril deste ano, após a saída da então presidente, Gláucia Brandão – que trocou de partido para concorrer como deputada estadual.

Nos primeiros meses à frente do PSDB Mulher, Walewska se dedicou à tarefa de criar um grupo complementar de candidatas, com bandeiras específicas. Saúde, educação e empreendedorismo aparecem como pautas principais das 20 postulantes que concorrerão em 2018. “Contamos com candidatas que representam a sociedade em suas diversas especificidades”, detalhou.

Em entrevista à Campanha Libertas, a presidente do PSDB Mulher explicou que todas as candidatas contam com assessor próprio, além de apoio de contador e advogado. Elas também participaram de cursos sobre oratória, políticas públicas e responsabilidades de cada esfera de poder. As capacitações foram feitas em parceria com o Instituto Teotônio Vilela (do próprio partido) e com a fundação política alemã Konrad Adenauer.

Parceria x enfrentamento

Esse movimento feminino no partido tem sido recebido com surpresa pelos candidatos homens. Muitos filiados perguntaram sobre a necessidade da lei de cotas, sem perceber como a representação feminina nos cargos públicos ainda é falha. “Estamos conduzindo esse processo de forma parceira, e não com enfrentamento. Assim, a aceitação fica mais positiva”, comentou Walewska.

Apesar disso, as postulantes ainda sofrem com a falta de projeção. Nenhuma delas têm padrinho político ou trajetória recente em algum cargo eletivo. Para a presidente do PSDB Mulher, o fato de elas não estarem inseridas na esfera pública as coloca atrás na corrida eleitoral. “Quem está no poder é visto mais vezes”, opinou.

Walewska Barros Abrantes, presidente do PSDB Mulher de Minas (Crédito: Marcela Káritas)

Mineiras sem dinheiro

Em seu site, o PSDB destaca o fato de ter sido o primeiro partido a acatar, em junho, à legislação que garante às mulheres 30% das vagas de candidatos, dos recursos do Fundo Partidário e do tempo de televisão – ainda que isso fosse obrigação de todos, prevista em lei.

Os critérios para a distribuição do recurso financeiro na legenda foram estabelecidos durante reunião da Executiva Nacional. O repasse será maior para aquelas que já estiveram em cargos eletivos, já disputaram eleições ou já conduziram trabalhos relevantes em cargos públicos. Nessa conta, as 20 tucanas mineiras inexperientes já saíram perdendo. “Elas ainda necessitam de maturidade política”, justificou Walewska, já que as candidatas de outros Estados devem receber mais dinheiro.

Ainda que as postulantes de Minas não alcancem o cargo público almejado, o PSDB Mulher do Estado acredita que está em um caminho sem volta. “A gente precisa tomar frente e fazer uma construção permanente”, completou Walewska. Nas próximas eleições, em 2020, o objetivo é continuar rumo ao aumento da representação feminina. “Pode ser que algumas candidatas tenham votação baixa, mas todas foram preparadas para disputar e têm o acolhimento do partido. Não temos candidatas laranja”, garantiu.

*Errata: Atualizamos essa matéria em 10/09/2018 para corrigir a seguinte informação: Minas Gerais já teve mulheres do PSDB eleitas como deputadas em outros pleitos, diferentemente do que informamos na primeira versão deste texto. As últimas eleitas foram Ana Maria Resende e Elbe Brandão. Elas exerceram o mandato até 2010, no cargo de deputada estadual.

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