Editorial

Política por mulheres e para as mulheres

Há 86 anos, as mulheres brasileiras conquistaram o direito ao voto, marcando um grande avanço na luta por direitos. No entanto, foi apenas na década de 1980 que a primeira brasileira alcançou o cargo de governadora de um Estado, quando Iolanda Fleming, então vice-governadora, assume a gestão do Acre. Foi apenas em 2010 que uma mulher se elegeu presidenta da República. E em 2018, vivemos um cenário de apenas 10% de mulheres eleitas no país. Nas outras esferas políticas não é diferente e foi apenas no ano de 2000 que uma mulher conseguiu compor a Suprema Corte brasileira.

Olhando para esses fatos e dados, e pensando na importância de aumentarmos a representatividade das mulheres na política, decidimos trabalhar em prol das candidaturas femininas e sob uma perspectiva feminista de jornalismo. Além da sub-representação, a estrutura machista da nossa sociedade faz com que a mídia trate as mulheres de forma pejorativa, invisibilizada e estigmatizada. A grande pergunta que fazemos a todo o momento é: como eleger mais mulheres, se elas são retratadas de forma deturpada ou apagadas a todo o momento? É importante lembrar aqui que essa crítica reflete todo um sistema patriarcal, que cria um modo de operar dominante e que se perpetua em várias esferas sociais e de poder.

Uma questão muito importante é a necessidade de um olhar feminista para as pautas políticas do nosso país e para as pautas que têm impacto direto na vida das milhões de brasileiras. Não acreditamos em uma melhora significativa nos direitos das mulheres sem que elas estejam em cargos públicos defendendo políticas para isso. É notório que em países onde a representação das mulheres é maior, temas relacionados a elas têm outra visibilidade e outra abordagem. Um exemplo disso é a discussão sobre aborto na Argentina, país que tem um Congresso com 30% de mulheres. Acreditamos que a pauta só entrou em discussão pela quantidade de mulheres eleitas.

Precisamos de mulheres para legislar por todas nós, para legislar a favor de políticas de inclusão, para legislar a favor de programas contra a violência doméstica e o feminicídio, para atuar na defesa da inclusão das mulheres no mercado de trabalho, para definir políticas que criem cidades mais seguras para as mulheres. Precisamos ter representantes que entendam a importância da interseccionalidade e de como é preciso aliar a luta das mulheres com as tantas outras lutas por igualdade e democracia. Não basta ser mulher, mas é preciso entender a urgência de ações pela vida das mulheres negras, pela população LGBT, contra a desigualdade social e contra tudo que a nossa sociedade exclui.

Ver um Parlamento onde homens brancos, heterosexuais, e de classe alta legislam sobre a maioria da população brasileira nos aflige e nos impacta diretamente. Eles são o oposto do que é o nosso país e não têm, sozinhos, a dimensão do que precisamos para vivermos um mundo mais igualitário. Então, viemos aqui para oferecer o nosso trabalho em prol de uma outra perspectiva de política. Criaremos conteúdo exclusivo sobre as candidatas mulheres em Minas Gerais e queremos mostrar ao mundo que elas existem, são capazes e estão dispostas a lutar por todas nós. Sabemos que ainda é muito pouco, mas acreditamos que a imprensa é um caminho primordial na correção das desigualdades que assolam, ferem e matam mulheres todos os dias. E é nesse sentido que estaremos aqui, em uma plataforma feita por elas, e dedicada a elas. Acompanhe o nosso trabalho e faça parte desta luta! É por mais mulheres na política e em todos os lugares.

Bárbara Ferreira
Campanha Libertas
Coletivo de Jornalistas Mineiras


Ilustração: Pollyana Dias