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Em eleição histórica para as mulheres, Minas Gerais elege 14 candidatas, 40% a mais que na última disputa

Publicado em 08/10/2018

Foi em meio aos gritos de “Uh, é mulher preta” e “Marielle vive” que Áurea Carolina e Andréia de Jesus foram recebidas na sede do PSOL, no centro de BH, para celebração da dupla vitória nas urnas neste domingo (7). Vereadora mais votada de Belo Horizonte em 2016, Áurea conquistou sua cadeira na Câmara dos Deputados com mais de 162 mil votos, ocupando o 5º lugar de um ranking composto majoritariamente por homens. “Chegamos com a coragem de defender as nossas causas sem arredar o pé nenhum milímetro do que a gente acredita. Estamos aqui por mais de nós no poder: mais mulheres negras, mais LGBTs, mais pessoas com deficiências. Nós teremos um quilombo no Congresso Nacional”, falou Áurea em discurso, arrancando palmas de seu eleitorado.

Nesta eleição, com todo o esforço das mulheres e do movimento feminista em divulgar as candidaturas femininas, elas finalmente chegaram a 15% de representação no Congresso Nacional – uma conquista histórica no Brasil, aumentando cinco pontos percentuais em relação à atual legislatura. Na Câmara, foram eleitas 77 deputadas federais, contra 51 em 2014, um aumento de 51%. No Senado, que neste ano é renovado em dois terços de seus assentos, foram eleitas sete, mesmo número de 2010 – quando a renovação de vagas se deu na mesma proporção. Somadas à bancada atual, elas passam a representar 12 de um total de de 81 cadeiras.

Minas Gerais também fez bonito: elegemos 40% a mais de mulheres do que na última eleição geral. Em 2014, foram 10 mineiras, cinco para a Câmara dos Deputados e cinco para a Assembleia. Neste ano, embora tenhamos conquistado uma cadeira a menos no Congresso, dobramos o número de deputadas estaduais eleitas e, assim, chegamos a 14 representantes femininas no Poder Legislativo.

Articulação feminina

E o que motivou a mudança? Vários fenômenos atuaram na campanha deste ano e um deles com certeza foi o fato de elas se entenderem como grupo político e de força. “Vimos mulheres engajadas na tentativa de colocar outras mulheres na Câmara e de entender que essa categoria ‘mulher’ tem que ser discutida dentro do poder”, afirmou a cientista política Helga Almeida, da UFMG, citando o movimento #ELENÃO como a prova dessa intensa articulação política feminina.

Ao mesmo tempo, outro fenômeno foi o avanço da extrema direita, com muitos homens brancos, conservadores e religiosos eleitos. “Infelizmente, a força de um movimento leva a um movimento contrário. Mas também significa que as mulheres estão fortes, estão cobrando uma das outras para se defenderem – isso nunca tinha acontecido”, avaliou Helga. Para ela, o mais importante é que as mulheres e outras minorias estejam lá representadas, mesmo que não sejam só as feministas, já que, por serem mulheres, elas têm vivências comuns às suas pares e diferentes dos homens.

Negras no poder

Outra vitória foi para a representatividade negra. Das 14 eleitas por Minas, quatro são pretas – 28,5% do total. Na atual legislatura, não há nenhuma negra por nosso Estado. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) também nunca teve uma representante preta e, agora, terá três.

Marielle Franco, companheira de luta, foi citada o tempo todo na fala das candidatas vitoriosas Áurea e Andréia. “Eles (assassinos da vereadora carioca) erraram o cálculo. Eles acharam que iam nos pisotear. E estamos aqui firmes”, bradou Áurea, ao lado de Andréia, eleita para a ALMG com quase 18 mil votos. Moradora de Ribeirão das Neves, Andréia discursou sobre a força das mulheres de luta que ocupam espaços tão marginalizados na sociedade. “Somos, sim, mulheres pretas. Elegemos mulheres pretas para espaços de poder”, defendeu.

Foto: Mídia Ninja / Divulgacão Facebook

Quem são as mineiras?

Dentre as eleitas em Minas Gerais, a média de idade é 46 anos. A maioria é da região Central do Estado, principalmente Belo Horizonte, mas há representantes da Zona da Mata, do Norte, do Rio Doce e do Alto Paranaíba. Cinco conquistaram a reeleição e nove venceram pela primeira vez e vão estrear nas cadeiras políticas. Elas vêm de diferentes profissões, são cientista política, professora, policial, advogada, assistente social e servidora pública. Confira aqui o perfil das eleitas. 

Rosângela Reis (Podemos) foi reeleita para seu quarto mandato na ALMG com 70 mil votos e celebrou duplamente a vitória ao saber que o número de cadeiras para mulheres na Casa praticamente dobrou neste pleito. “Quando eu cheguei, éramos pouquíssimas. A concorrência é muito desigual. Para as mulheres é muito mais difícil”, afirmou. Ela disse ainda que acredita que esse fortalecimento vai fazer com o que as causas femininas tenham muito mais força.

Cerca de 71 mil eleitores escolheram a deputada estadual Marília Campos (PT) para exercer seu segundo mandato em Minas. Ela comemorou o aumento não só de mulheres, mas de uma bancada feminina progressista, que será fundamental no atual cenário político. “Não podemos deixar de olhar para o avanço do conservadorismo, mas ainda seguimos firmes na luta”, ponderou.

As demais mulheres eleitas pelos mineiros foram procuradas pela reportagem nesta segunda-feira (8), mas não retornaram. Em suas redes sociais, elas agradeceram aos eleitores pela vitória.

Para além da urna

A conquista feminina nesta eleição, no entanto, vai muito além do resultado das urnas, de quem ganhou ou não ganhou. Ela começou no dia em que coletivos feministas e diversas mulheres decidiram se unir para lutar contra a desigualdade nos espaços de poder, para colocar seus corpos nas ruas e na disputa eleitoral.  

Duda Salabert durante a campanha, em evento Contagem – Foto: Bárbara Ferreira

Primeira candidata travesti ao Senado brasileiro, Duda Salabert (PSOL) não foi eleita, mas saiu com a certeza de ter feito história. Ela escreveu nas suas redes sociais que 351 mil pessoas se sentiram representadas por ela – a maior votação de seu partido em Minas – mesmo “sem tempo para fazer campanha (pois leciono 40 aulas por semana), somente quatro segundos no tempo de TV e apenas R$ 15 mil”. Isso em um país cuja expectativa de vida de uma travesti, segundo Duda, é de 35 anos. “Sem dúvida, a maior vitória que tive foi ouvir centenas de narrativas que traziam o seguinte conteúdo: meu pai não me aceita, é muito preconceituoso, mas me disse que vai votar em você”, relatou, feliz por saber que sua candidatura simbolicamente serviu como “ponte para aproximar pais e filhos” e para desconstruir preconceitos.

A postulante fez questão de descrever mais sobre a sua campanha: “Mostramos que política não está só na economia, nas ideologias, nas lutas de classes; mostramos que política está no afeto, no simbólico, na união das famílias”. Toda a coordenação da campanha, continuou Duda, foi realizada por um homem trans; a comunicação ficou nas mãos de dois gays, e os colaboradores formaram a diversidade LGBTIQ+.

Encerramos essa reportagem, feita a várias mãos Libertas, fazendo da mensagem final de Duda as nossas palavras: “Nossa luta apenas começou. Hoje é o primeiro dia de campanha para as eleições de 2020! Não é nem um pouco confortável disputar uma eleição. Política é um espaço tóxico. Mas é necessário ocupá-la e transformá-la. Vamos juntas pois sonho que sonha junto é realidade.”

*Errata: A cor/raça da candidata Ana Paula Siqueira foi corrigida para preta – por um erro no levantamento, antes estava branca. Assim, 4 das 14 eleitas são pretas, 28,57% do total. O texto foi atualizado no dia 10 de outubro.

Deputadas Federais eleitas (MG)

Áurea Carolina (PSOL) Deputada Federal – 162.740 votos. Foto: Bárbara Ferreira
Margarida Salomão (PT) Deputada Federal – 89.378 votos. Foto: Bárbara Ferreira
Alê Silva (PSL) – Deputada Federal -48.043 votos. Foto: Reprodução Facebook
Greyce Elias (Avante) – Deputada Federal 37.620 votos. Foto: Reprodução Facebook

Deputadas Estaduais eleitas (ALMG)

Beatriz Cerqueira (PT) – Deputada Estadual – 96.824 votos. Foto: Reprodução Facebook
Delegada Sheila (PSL) – Deputada Estadual – 80.038 votos. Foto: Reprodução Facebook
Marília Campos (PT) – Deputada Estadual – 71.329 votos. Foto: Bárbara Ferreira
Rosângela Reis (Podemos) – Deputada Estadual – 70.040 votos. Foto: Reprodução Facebook
Celise Laviola (MDB) – Deputada Estadual 57.412 votos. Foto: Reprodução Facebook
Ione Pinheiro (DEM) – Deputada Estadual – 55.634 votos. Foto: Reprodução Facebook
Leninha (PT) – Deputada Estadual – 51.407 votos. Foto: Reprodução Facebook
Laura Serrano (Novo) – Deputada Estadual – 33.813 votos. Foto: Reprodução Facebook
Ana Paula Siqueira (Rede) – Deputada Estadual – 23.372 votos. Foto: Reprodução Facebook
Andreia de Jesus (PSOL) – Deputada Estadual – 17.689 votos. Foto: Reprodução Facebook

[A Campanha Libertas é um coletivo independente e suprapartidário. Todos os nossos textos podem ser republicados gratuitamente, desde que não sejam editados e tenham a assinatura da repórter que escreveu e o link campanhalibertas.org. Quer ser um republicador e saber mais sobre as nossas pautas? Escreva para campanhalibertas@gmail.com]

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Candidatas reclamam da falta recursos, e repasse de partidos fica sem fiscalização

Publicado em 06/09/2018

Informações desencontradas e interpretações diferentes para o que já foi definido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) prejudicam a garantia de recursos para as candidatas. Mulheres que estão em campanha em Minas Gerais para conquistar cargos no Legislativo reclamam de negligência de seus partidos e cobram o repasse de verbas.

Em maio, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, conhecido como Fundo Eleitoral, deveriam ser destinados às candidaturas femininas. Dois meses antes, o Supremo Tribunal Federal (STF) já havia determinado que o mesmo deveria ocorrer para o Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, conhecido como Fundo Partidário.

Os fundos são distintos. O Fundo Eleitoral foi criado em 2017 após a minirreforma eleitoral proibir as doações de empresas em 2015. Ele é abastecido com recursos públicos e distribuído aos partidos, principalmente de acordo com a quantidade de deputados e senadores das legendas no Congresso. Já o Fundo Partidário foi criado em 1995 e é formado por recursos públicos e privados, contando ao mesmo tempo com verbas do orçamento da União e doações de pessoas físicas ou jurídicas.

Constrangimentos

Mais de 20 dias após o início do período eleitoral, candidatas denunciam à Campanha Libertas que ainda não receberam nem um real sequer de seus partidos. É o caso de Aparecida Moreira de Oliveira, de 52 anos, a Cidinha Professora e Advogada. Ela tenta pela primeira vez ser deputada estadual pelo MDB e conta que, até agora, o que conseguiu fazer em campanha foi com dinheiro próprio. “Já era para terem depositado, mas não recebemos. Estou me sentindo enganada. Todo dia o partido fala que vai depositar, mas não faz nada”, reclama.

Aparecida Moreira de Oliveira, candidata à deputada estadual pelo MDB. Foto: Arquivo pessoal

Outra candidata a deputada estadual pelo MDB de Minas fez a mesma denúncia de que a legenda não havia repassado a verba do Fundo Partidário. “Na verdade, não querem mulheres disputando. Estamos passando por constrangimentos morais e materiais, por falta de material de campanha e pelas pessoas que já havíamos falado da candidatura”, afirmou a candidata em mensagem enviada à reportagem. “Como as mulheres vão conseguir vagas no Congresso e no Legislativo Estadual se o próprio partido boicota nossa campanha?”,  questiona ela, finalizando: “Somos a maioria do eleitorado, mas quem se importa?”.

A Campanha Libertas entrou em contato com a assessoria do MDB de Minas, que, em resposta, informou que o repasse às candidatas teria sido feito nesta quarta-feira (5).

Regras não são claras

Apesar das decisões recentes do TSE e do STF, as candidatas enfrentam a falta de uma definição clara para a distribuição da cota de 30% por parte dos diretórios nacionais dos partidos. Elas precisam obter os recursos para dar visibilidade às suas campanhas eleitorais, mas não poderão contar com a verificação do cumprimento da norma pelos órgãos de fiscalização – a checagem ficará para depois do pleito.

O Ministério Público Eleitoral informou à Campanha Libertas que a Procuradoria Regional Eleitoral não tem como realizar esse controle. Segundo o MP, o Fundo Eleitoral é distribuído aos diretórios nacionais dos partidos e são esses órgãos que dividem os recursos entre as diversas campanhas de todo o país. Por isso, os órgãos locais, como os Tribunais Regionais Eleitorais, não conseguem avaliar o cumprimento ou não da cota de 30%.

Ainda de acordo com o MP Eleitoral, somente o TSE e a Procuradoria Geral Eleitoral têm condições de compilar os dados das campanhas de todos os Estados e verificar a observância do percentual de financiamento. “Assim sendo, a Procuradoria Regional Eleitoral, por não ter atribuição para fiscalizar atos dos diretórios nacionais, e na ausência de regulamentação do TSE que diga que o percentual também deve ser observado dentro de cada estado, não tem como realizar esse controle”, explicou o órgão por meio de nota.

A Campanha Libertas também questionou o MP Eleitoral sobre a fiscalização do Fundo Partidário, que não foi citado na nota, e aguarda resposta para atualizar esta matéria.

 

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Quem é a mulher Maria Osmarina Marina?

Publicado em 30/08/2018

Na foto em preto e branco, ela aparece caminhando a passos largos, em meio à mata, de calça frouxa, blusa de botão e cabelo preso em coque alto – que virou sua marca. Olhando para baixo, como quem segue firme um trajeto, ela conduzia um grupo de pessoas: mulheres negras como ela, criança e homens (esses seguiam atrás, não à frente). Observa-se no retrato tirado há 32 anos a mulher Maria Osmarina Marina da Silva Vaz de Lima antes de ser a candidata à Presidência Marina Silva.

A fotografia foi postada no Instagram da candidata, recentemente, para desmentir uma informação falsa na internet de que ela invadia fazendas no Acre, Norte do Brasil. Na verdade, diz a legenda do post, Marina liderava uma manifestação que conseguiu impedir o desmatamento ilegal de 700 hectares de floresta. Em discurso, ela afirmou que havia andado seis horas à pé naquele dia.

Hoje, a imagem de Marina Silva é quase sempre transmitida como a de uma mulher fraca, corroborada por suas vestes em tons neutros, pela fala serena e andar calmo em atos de campanha. Na construção desse personagem, em um meio político machista, Marina é retratada ainda como a postulante que não sabe fazer alianças, e quase nunca é destacada como a candidata livre de qualquer denúncia de corrupção. Ela  precisa sempre reforçar em entrevistas e palanques que é mulher forte, preparada e ficha limpa.

Divulgação Marina Silva

Em 2019, completará três décadas de carreira política, iniciada em 1989 quando foi a vereadora mais votada em Rio Branco, no Acre. Naquela época, sem dinheiro, discursava em palcos improvisados e conseguiu se eleger. Depois, chegou ao posto de deputada estadual com mais votos pelo seu Estado e tornou-se a senadora mais jovem da história da República, mais votada novamente e reeleita.  

Desde 2010, Marina tenta chegar ao mais alto cargo do país, recebendo cerca de 20 milhões de votos em cada uma das duas eleições que disputou e ficando sempre em terceiro lugar. Agora, na terceira tentativa, concorrendo pela Rede Sustentabilidade (partido criado por ela), é a terceira colocada nas pesquisas que apontam Lula (PT) em primeiro e Jair Bolsonaro (PSL) em segundo. A mulher nascida no interior do Acre – Estado pouco lembrado no cenário nacional –, alfabetizada aos 16 anos e formada historiadora aos 26, busca incluir na sua própria história o posto de presidente do Brasil. Mas, na corrida pelo cargo,  ela não costuma ir em eventos com multidões, prefere contatos mais próximos com as pessoas, resultando em pouco impacto na mídia e no público.

Marina sempre carregou a bandeira do meio ambiente, já que foi na floresta amazônica o início da sua militância. Apesar de ser mulher, negra, nortista e pobre, de origem, nunca usou a palavra feminista – parece até evitá-la. “Eu tenho um compromisso com essa agenda, quando falo do problema das mulheres, isso faz parte da minha trajetória política”, afirmou ela em entrevista coletiva na semana passada, citando dados recentes. “Temos uma situação em que 1.133 mulheres foram vítimas de feminicídio, 60 mil estupros só em 2017, 70% foram de crianças e adolescentes”.

Divulgação Marina Silva

Nas eleições deste ano, movimentos femininos pelo país estão atuando fortemente, cobrando e promovendo visibilidade para as pautas das mulheres. Marina tem direcionado  o seu discurso para reiterar que representa essa metade da população votante, mas ainda não conseguiu conquistar as feministas que militam, principalmente, nas causas e partidos tradicionais da esquerda. Nessa tentativa, a candidata da Rede tem se apresentado  mais flexível em temas prioritários para o feminismo e abriu espaço para um plebiscito sobre a descriminalização do aborto.

“Uma mulher que faz um aborto precisa de acolhimento, de médico, de psicólogo… mas não defendo o aborto”, disse, já emendando que se for para ampliar (o aborto) para além das formas que já existem, previstas em lei, “não acho que seja adequado que 513 deputados e 81 senadores substituam 200 milhões de brasileiros em um tema tão polêmico”, complementou, se referindo ao plebiscito.

Ecofeminismo

A candidata prefere colocar a pauta da mulher no pacote das muitas “políticas públicas necessárias, que incluem aquelas voltadas para as comunidades fragilizadas, indígenas e tantas outras”. Mas uma porta-voz da Rede informou que o partido de Marina declara-se Ecofeminista, em uma perspectiva da mulher com a natureza.

Independentemente do tipo de feminismo que consiga encaixá-la, Marina, sabendo que as mulheres podem decidir estas eleições, faz questão de se posicionar a favor dessa parcela da sociedade (ao qual também pertence) quando colocada frente à frente com seu concorrente direto Jair Bolsonaro. Entrou em embates duros com ele ao vivo ao defender que ainda existe muita diferença salarial entre homens e mulheres, por exemplo.

Divulgação Marina Silva   “Eu estou desde os 17 anos tendo que provar que penso, tendo que provar que sei e o tempo todo eu vejo as pessoas me subestimando. Como são subestimadas as mulheres brasileiras… Porque esse lugar parece que não foi feito para nós. E quando se é negra, quando se é pobre, a gente tem que provar duas vezes, mas eu me submeto ao teste”.  Marina Silva (em sabatina que participou nesta semana)

 

Fora os debates e entrevistas, Marina terá 21 segundos para defender seu programa de governo na propaganda eleitoral gratuita. O PSDB tem 5 minutos e meio, e o PT mais de 2 minutos, partidos que ela sempre cita como polarizadores do país e da “velha política corrupta”. A candidata da Rede já foi do PT, PV, PSB; já apoiou Lula e Aécio Neves, instabilidade que faz muitos duvidarem de sua capacidade para a governabilidade. Hoje, ela se mostra avessa às negociações com legendas e opta por alianças com grupos sociais e com pessoas.

Marina recebeu R$ 5,6 milhões para sua campanha, e Geraldo Alckmin (PSDB) conta com R$ 43,3 milhões. Lula ainda não prestou contas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Eu tenho ouvido que minha candidatura não é viável, porque não tem dinheiro, não tem tempo de televisão, mas para ganhar uma eleição só é necessária uma mudança de postura do cidadão, uma frestinha”, defende.

Quando fala em fresta, ela aproveita para lembrar das dificuldades que passou para chegar aos 60 anos candidata. Começou a trabalhar aos 10  e foi empregada doméstica. A mãe faleceu quando ela tinha quinze anos, vítima de doenças adquiridas pela falta de infraestrutura onde viviam. “Eu passei por uma frestinha na educação e na saúde pública. Nunca me esqueço do dia em que o médico me disse que não havia mais alternativa para mim, pois eu já tinha pegado cinco malárias, estava na terceira hepatite”. Aos 19 anos, com a ajuda de um bispo, Marina seguiu para São Paulo com passagem só de ida. “Mandei um recado para o meu pai lá no meio do mato, a minha família inteira se reuniu e mandou o dinheiro da passagem – R$1.979 – e foi primeira vez que entrei em um avião”.

Reprodução Instagram Marina Silva

Morou na periferia paulista e recebia ajuda para comer e melhorar o fígado castigado, e ainda mantém hoje várias restrições alimentares. Na vida de Marina, a religião sempre esteve presente. Era católica e converteu-se à Igreja Evangélica aos 42 anos, aderindo à linha pentecostal, motivo que provoca receio entre feministas pelo discurso bastante conservador, embora defenda o Estado laico em seu plano de governo. Também em seu programa, ela diz aprovar a união civil entre homossexuais. Marina chega, então, a mais uma disputa pela Presidência, com o desafio de cativar o eleitorado feminino, jovem e LGBT, revelando a mulher de luta que sempre foi.

MARIA OSMARINA MARINA DA SILVA VAZ DE LIMA

Cidade: Rio Branco – Acre

Idade: 60 anos

Cor/raça: Preta

Ocupação: Historiadora, professora, ambientalista

Família: Tem quatro filhos, separou-se do primeiro marido em 1985 e casou-se novamente no ano seguinte

Bens declarados: Tem R$ 118 mil em lotes e uma casa em Rio Branco

Site: marinasilva.org.br

Leia também o texto sobre a outra mulher candidata à Presidência nestas eleições: Vera Lúcia (PSTU), a representante da extrema esquerda

Pela primeira vez, extrema esquerda tem uma mulher na disputa

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Reportagens > Agenda

Movimento feminista #partidA lança candidaturas em MG

Publicado em 21/08/2018

Vinte mulheres mineiras de três partidos lançaram, conjuntamente, suas candidaturas a cargos políticos nesta segunda-feira, dia 20, em Belo Horizonte. O grupo integra o movimento feminista e antirracista #partidA, que estimula a formação e fortalecimento de líderes políticas em 12 estados brasileiros. O evento também contou com a presença da candidata a vice-presidente do país pelo PSOL, Sônia Guajajara, da candidata ao governo de Minas, Dirlene Marques, também do PSOL, e da postulante a vice-governadora de Minas Gerais pela coligação formada entre PT e PCdoB, Jô Moraes.

“Nós temos um imenso desafio na política que é fazer com que mulheres possam ocupar espaços de poder. Por isso, é importante que se faça o lançamento de candidaturas comprometidas com a agenda feminista, com os direitos sexuais e reprodutivos e com os direitos civis em todas as dimensões”, comentou Jô Moraes.

Foto: Mídia Ninja

Durante o encontro, 15 candidatas, sendo 13 do PSOL, uma do PT e uma da Rede Sustentabilidade, apresentaram brevemente suas bandeiras para ocupar as posições de deputada estadual, federal, senadora e governadora.  Sônia Guajajara lembrou que 2018 é o ano em que há mais diversidade de candidaturas em nosso país: mulheres indígenas, negras, quilombolas, da periferia, portadoras de deficiência. “A força da diversidade é que vai trazer essa transformação para construirmos o país que a gente quer”, defendeu.

Meu voto é feminista

A #partidA em Minas Gerais totaliza 20 candidaturas, formadas e fortalecidas pelo próprio movimento, estabelecido em 2015. “Nesse grupo, é nossa trajetória, nossa vida e nosso corpo que importam, não o partido. O afeto e o amor na política são importantes para nós, essa é a nossa diferença e a nossa força”, afirmou Silvia Teixeira, candidata a deputada estadual pela Rede.

Para Marlise Matos, professora associada do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ativista da #partidA MG, a força do movimento está na união de mulheres com diferentes trajetórias, que se juntam para fazer política em grupo, buscando a sororidade e o ativismo interseccional. “A ideia do nosso movimento, que é suprapartidário, é se organizar a partir dessa agenda de mulheres que têm a democracia como objeto de desejo e de realização própria”, detalhou.

Para alcançar esse objetivo, o movimento tem realizado oficinas, debates e rodas de conversa sobre diversos temas relacionados à política, além de promover a convivência entre essas mulheres. Também foi criada a campanha “Meu voto será feminista”, que reúne em uma plataforma online informações sobre todas as candidaturas que integram o movimento.

 

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