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Para além do voto

Protagonistas em movimentos na sociedade civil, mulheres mostram que é possível – e necessário – fazer política antes, durante e depois do período eleitoral

Com uma atuação próxima das pessoas, elas lutam por representatividade no dia a dia, nas suas comunidades, mesmo sem ter cadeiras no Legislativo

Por:
Thaíne Belissa
Foto: Andreia de Jesus no movimento das Brigadas Populares. (Arquivo pessoal)

Publicada em 05/10/2018

Anotar em um papel os números das candidatas e candidatos escolhidos, conversar com amigos sobre sua escolha, ler as últimas notícias sobre as candidaturas. Nas vésperas da votação, é isso que resta fazer, lutar pela democracia expressa no voto. Mas, e quando o período eleitoral passar? Ainda é possível fazer muito para se ter uma política mais justa e igualitária. Mulheres que estão na batalha diária pelos direitos da população feminina não desistem de influenciar o poder público. Há muito tempo, elas não esperam a chegada das eleições para fazer política.

A coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher (Nepem) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marlise Matos, destaca que a pauta da mulher é, na verdade, um conjunto de agendas ligadas ao território, à etnia, à juventude, à saúde, entre tantas outras do universo feminino. Mas essas demandas ganham pouca atenção pela falta de representatividade delas no poder público. “Geralmente, as prefeituras e as câmaras municipais estão nas mãos de homens. Então, essa bolha não se rompe, e a pauta das mulheres nunca emplaca”, pontua a especialista.

A solução mais prática seria um governo com paridade de gênero, mas, enquanto esse ideal não é alcançado, a sugestão de Marlise é que as mulheres encontrem atalhos na formação de grupos com atuação política, como os conselhos municipais. “Os conselhos costumam ser um espaço importante para deflagrar as iniciativas junto ao Executivo”, explica a coordenadora do Nepem. As negras, as quilombolas, as mulheres de regiões rurais e tantas outras podem participar desses núcleos municipais e, assim, começar a contemplar a agenda de gênero.

Conselhos municipais

Em Belo Horizonte, existem 24 conselhos municipais, segundo a prefeitura da capital,  formados por representantes do poder público e da sociedade civil. Além do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, há diversos outros com temas que passam por essa luta. Alguns exemplos são os de Habitação; de Promoção de Igualdade Racial; dos Direitos da Pessoa com Deficiência; de Alimentação Escolar e da Juventude.

Carla Anunciatta de Carvalho. Foto: Arquivo Pessoal

Na presidência do Conselho Municipal de Saúde de Belo Horizonte está Carla Anunciatta de Carvalho. Ela acabou de ser eleita para o cargo, mas sua atuação pela melhoria da saúde pública acontece há anos, desde quando ela viu seu direito ser negligenciado como usuária do sistema. “Minha história de luta pela saúde começou quando fui fazer uma consulta no posto. O médico não foi, e ninguém avisou”, recorda Carla. À época, ela escreveu uma sugestão para a caixinha de reclamações, e a gerente do posto a chamou para participar da Comissão Local de Saúde, que é uma instância anterior aos conselhos, em que participam gerentes e usuários dos centros de saúde.

As demandas levantadas nesse grupo vão para os conselhos distritais de cada região para, depois, seguirem para os conselhos municipais. Carla avalia que a participação nesse tipo de grupo é importante para todos os cidadãos, mas ainda mais urgente no caso das mulheres. “Mais da metade dos usuários dos centros de saúde é de mulheres, seja para levar os filhos para vacinar, se tratar ou buscar atendimento para elas”, afirma a conselheira, destacando que a presença delas no Sistema Único de Saúde (SUS)  também é forte no quadro de funcionários. Presentes nesses espaços de atuação política – analisa Carla –, elas podem pensar nas ações de atenção à saúde da mulher, em demandas como humanização do parto, e lutar para que sejam bem assistidas no SUS.

Lutas populares

Outro espaço de exercício da política comumente ocupado pelas mulheres é o da luta popular, que se desdobra em diversas iniciativas e grupos. Um deles é o Brigadas Populares, que atua em diferentes demandas cotidianas, como reforma urbana e lutas antiprisional, sindical, pela juventude e pelas mulheres. Há uma frente de trabalho dedicada às pautas exclusivamente femininas, mas as mulheres são a força motriz de muitas outras batalhas. “As mulheres, historicamente, estão produzindo insurgências contra o modelo dominante”, afirma Andreia de Jesus, integrante do movimento e candidata a deputada estadual em Minas Gerais. “Elas são pioneiras na autoria de projetos, na condução de experiências como as ocupações urbanas, na luta pelo direito ao trabalho”, cita Andreia.

Andreia de Jesus. Foto: Arquivo Pessoal

Mais um exemplo de participação forte delas é o caso dos ambulantes que disputam os centros e o comércio, que são em sua maioria mulheres. Também são elas que reivindicam o direito de acessar os familiares que estão presos. Para Andreia, o enfrentamento ao genocídio de jovens negros é, sim, uma luta feminista. “São as negras que têm perdido seus filhos para uma violência estatal e que se organizam para questionar esse Estado punitivo, que encarcera de forma massiva”, defende. Seja na atuação da política do cotidiano ou da política formal e institucional, o maior desafio, nas palavras de Andreia, é a construção de um poder de identidades feminina, étnica e de classe.

Nesse contexto de luta popular também se destaca a participação juvenil por meio dos Fóruns das Juventudes dos municípios. O de Belo Horizonte, que agrega jovens da região metropolitana, realiza atividades de mobilização, formação, comunicação e incidência política, utilizando espaços e linguagens dos jovens em atividades como saraus, batalhas de MCs e ações em escolas. A coordenadora política do Fórum das Juventudes de Belo Horizonte, Nívea Sabino, afirma que o recorte de gênero – assim como o de raça e de orientação sexual – é fundamental para a compreensão de como alguns corpos estão mais sujeitos às vulnerabilidades sociais.

“Dentre os secundaristas que lutaram e ocuparam as escolas públicas requerendo melhorias, as mulheres não só foram a maioria, como lideraram os movimentos”, frisou. Segundo Nívea, no movimento de poesia falada, elas revolucionaram esses espaços que eram majoritariamente masculinos, e hoje são homogêneos. “As mulheres são o chão da luta e a base de todas as mudanças sociais, não precisam esperar apenas pelas eleições para agir”, disse. Foi no Fórum das Juventudes que ela compreendeu o quanto a sua poesia era resistência e ativismo. Áurea Carolina, vereadora mais votada em Belo Horizonte nas últimas eleições, é “cria” desse Fórum.

Coordenadora política do Fórum das Juventudes de Belo Horizonte, Nívea Sabino. Foto: Beth Freitas 

Fora dos grandes centros

Mulheres também lideram ações e movimentos fora dos grandes centros. São delas as vozes que clamam pelas comunidades que vivem na periferia, nas ocupações urbanas e em comunidades tradicionais como quilombolas e indígenas. Integrante do Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores por Direito (MTD), Valéria Borges Ferreira é uma das lideranças na Pedreira Prado Lopes, aglomerado antigo de Belo Horizonte. A ativista realiza um trabalho educativo com cerca de 100 mulheres, trabalhando questões como política, sexualidade, autoestima e outros temas de interesse do universo feminino.

O objetivo é trabalhar a visão que elas têm de si mesmas para que entendam sua força e contribuam politicamente. “O trabalho que eu desenvolvo tem ajudado muitas mulheres a se enxergarem politicamente e emocionalmente”, acredita Valéria, que busca ainda mostrar que há outros caminhos fora desses que são impostos a elas. “Elas têm aprendido que precisam fazer uma revolução, fazer algo acontecer primeiro na vida delas, entendendo o papel que têm na sociedade e, assim, conseguir romper as correntes que as prendem”, afirma.

Ainda mais longe da capital, a voz de Maria Aparecida Dias, a Tuquinha, se faz ouvida na comunidade quilombola Chacrinha dos Pretos, em Belo Vale, na região Central de Minas. A comunidade é de 1752 e, hoje, reúne 45 famílias, somando cerca de 150 pessoas. Tuquinha, que é presidente da Associação Comunitária da Chacrinha, acredita que sua atuação pelos direitos de sua comunidade e de outras ao redor é, muitas vezes, a única “política” com a qual os quilombolas contam. “Tem coisa que faço aqui que é muito maior do que o que os próprios políticos fazem”, ressalta ela, elencando algumas ações. “Ajudo outras comunidades a fundar associações, consigo médicos, empregos para os jovens, professores melhores, e converso com o prefeito sobre as necessidades locais”. As mulheres são maioria não apenas nas famílias que compõem a comunidade, mas também na atuação política. “Mesmo com dificuldades, elas vão até o fim nas batalhas”, diz.

Maria Aparecida Dias, Tuquinha. Foto: Arquivo Pessoal

A história do movimento MUITAS

Muito antes das campanhas eleitorais, um grupo formado por gente das ruas e dos movimentos sociais fez história em Belo Horizonte. Idealizado em 2015, o movimento MUITAS começou com um simples chamado no Facebook para “Uma tarde de sábado” e uma conversa sobre um outro tipo de política, em que a representatividade importava. O grupo se agigantou e, no ano seguinte, chegou ao poder com a vitória de duas vereadoras: Áurea Carolina e Cida Falabella, ambas do PSOL.

Integrante e apoiadora do movimento desde o início, Janaína Macruz explica que aquela tarde de sábado se transformou em diversos outros encontros e em uma construção coletiva de um projeto de governo que representasse a sociedade em suas diferenças de corpos e de demandas. “Decidimos que iríamos ocupar as eleições porque as instâncias de poder estão aí para representar toda a sociedade, mas o que vemos é apenas um grupo representado: homens brancos e héteros”, destaca Janaína.

Como no Brasil não é possível ter uma candidatura independente, o MUITAS realizou diversas reuniões com partidos de esquerda para filiar suas candidatas. O PSOL foi o que teve maior abertura para o movimento e, por isso, foi o escolhido para lançar 12 candidaturas nas eleições de 2016. “A vitória de duas mulheres foi muito significativa. O sistema tenta de tudo para que a gente não chegue lá, mas o povo unido atravessa as barreiras do racismo, da heteronormatividade e do machismo”, avalia Janaína.

Reunião do MUITAS. Foto: Reprodução Facebook

Gabinetona

O trabalho por representatividade continuou quando as vereadoras assumiram seus cargos na Câmara de Belo Horizonte em 2017. A primeira ação delas foi desconstruir a ideia de “trabalhos individuais” e, assim, quebraram as paredes de seus gabinetes e transformaram os espaços em um só, chamado de Gabinetona. “Lá, trabalham mulheres, trans, moradores de ocupações e diversas pessoas que representam as diferentes demandas da cidade; tudo é conversado com a população”, pontua Janaína.

A integrante do MUITAS chama as mulheres para “saírem da utopia e irem para a prática da luta”. E são várias as formas de incluir as mulheres nessa luta, desde votar nelas para cargos públicos, passando pela atuação em movimentos, até a escolha de mulheres para ocupar posições em empresas ou realizar serviços diversos. Janaína Macruz é produtora cultural e, quando precisa escolher profissionais para os projetos, tenta encontrar uma mulher: “Precisamos nos fortalecer juntas, porque, quando uma avança, todas nós avançamos”.

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